AnaMaria Indica: Dona Beja
Anamaria

Não é surpresa para ninguém que as novelas têm enfrentado uma certa resistência do público. Histórias rasas, personagens pouco desenvolvidos e conflitos que se resolvem rápido demais vêm afastando telespectadores que cresceram acompanhando tramas densas, cheias de camadas e reviravoltas. É justamente nesse cenário que “Dona Beja”, nova novela da HBO Max, surge como um sopro de renovação. A produção aposta no retorno de narrativas mais encorpadas e apresenta uma protagonista feminina transgressora, dona do próprio desejo e muito à frente do seu tempo.
A trama é inspirada na história real de Ana Jacinta de São José, figura histórica mineira do século XIX que virou lenda por sua beleza, inteligência e por desafiar as normas morais da época. A novela é uma atualização da obra originalmente exibida em 1986 pela extinta TV Manchete, protagonizada por Maitê Proença, que marcou época ao apresentar uma mulher livre em uma sociedade profundamente conservadora.
40 anos depois…
Agora vivida por Grazi Massafera, Beja é apresentada como uma jovem que tem a vida atravessada por violência, injustiça e exclusão, mas que transforma essas experiências em força e poder. A narrativa acompanha sua ascensão social e emocional, enquanto ela enfrenta uma sociedade que tenta enquadrá-la a qualquer custo. O elenco ainda conta com nomes como David Junior, Bianca Bin, Deborah Evelyn, Erika Januza e Indira Nascimento, entre outros.
Escrita por Daniel Berlinsky e António Barreira, a produção incorpora com mais profundidade temas como racismo, transfobia, desigualdade social e violência de gênero. Vale destacar que a novela original já tocava em alguns desses assuntos, mas agora eles ganham uma abordagem mais direta, refletindo os quase 40 anos que separam uma versão da outra.
Apesar de dialogar com a obra clássica, “Dona Beja” não é um remake nem tenta parecer. A novela assume sua identidade própria, o que é um alívio para o telespectador em meio a uma onda de refilmagens que nem sempre conseguem atualizar suas histórias com o cuidado necessário. Aqui, a sensação é de estar diante de uma nova obra, que respeita suas origens sem ficar presa a elas.
Nova abordagem
Nos primeiros capítulos, que AnaMaria teve acesso antes da estreia, já fica claro que a novela adota uma abordagem diferente das tradicionais produções de época. Embora apresente personagens negros em posições de destaque por questões econômicas, o folhetim não ignora o racismo estrutural do período. O mesmo acontece com a naturalização da violência sexual contra as mulheres, tema que surge logo no início da história, assim como a exigência social de que mulheres se casassem virgens.
Beja aparece como uma figura disruptiva ao se incomodar com a humilhação pública de uma mulher por não ter “se guardado” para o casamento e ao impedir que uma mulher trans seja morta em praça pública. A novela é de época — figurinos, linguagem e cenários deixam isso claro —, mas os debates levantados são mais atuais do que nunca.
“Dona Beja” estreou no dia 2 de fevereiro na HBO Max, com os 10 primeiros capítulos já disponíveis na plataforma. Ao todo, a trama terá 40 capítulos, com estreias semanais de cinco episódios todas as segundas-feiras. Esta é a segunda novela original da HBO Max e, assim como “Beleza Fatal”, tem tudo para conquistar público e crítica. Para quem sente falta de histórias mais densas e provocadoras, vale muito a pena conferir.
A matéria acima foi produzida para a revista AnaMaria Digital (13 de fevereiro). Se interessou? Baixe agora mesmo seu exemplar da Revista AnaMaria nas bancas digitais: Bancah, Bebanca, Bookplay, Claro Banca, Clube de Revistas, GoRead, Hube, Oi Revistas, Revistarias, Ubook, UOL Leia+, além da Loja Kindle, da Amazon. Estamos também em bancas internacionais, como Magzter e PressReader.
Leia também:
AnaMaria Indica: ‘(Des)controle’ é mais do que apenas uma história sobre alcoolismo