Claudia Leitte: “Se você tem amor pelo que faz, as pessoas certas vão aparecer”
Anamaria

Por Renan Pereira e Lígia Menezes
À frente dos projetos Especiarias e Intemporal, Claudia Leitte explica que nunca enxergou a música como um caminho limitado por estilos ou estratégias. “Nunca encontrei limites. Música é sempre uma oportunidade de você fazer parte daquela história”, afirma.
A pandemia, no entanto, interrompeu esse fluxo. Após um carnaval intenso e o nascimento da filha mais nova, Claudia viveu simultaneamente o puerpério e o isolamento social. “Eu estava distante de mim, do meu propósito, da minha cabeça”, relata. Sem o encontro físico com o público, ela descreve ter experimentado uma dor inédita, que a levou a buscar apoio profissional. “Fiz terapia na pandemia e faço até hoje. Nada substitui a terapia”, diz
Esse período deu origem ao Intemporal, definido por ela como um trabalho ligado à saúde mental e à necessidade de introspecção. Já Especiarias, lançado em duas partes, surge em outro movimento, dialogando com ritmos latinos e com a energia do carnaval. Para Claudia, os projetos refletem fases distintas de um mesmo processo. “O palco é onde transformo o que vivi. É ali que digo para mim mesma que tudo passa.”
Mãe de três filhos e casada há quase duas décadas, ela afirma que a família sustenta sua rotina profissional e emocional.
Claudia, você está atualmente com o projeto “Especiarias”, que foi lançado em duas partes. Nele, você traz um pouco do estilo reggaeton. Isso é um indício de que você está buscando internacionalizar sua carreira?
Eu sempre gravei tudo, porque a música da Bahia sempre me permitiu esse espaço. Eu gravei reggaeton e gravei em espanhol com Daddy Yankee antes do Despacito. Eu sempre me permiti e a música da Bahia sempre me deu essa oportunidade de tocar outras coisas. A gente passa cinco horas por dia em cima do trio, então tem espaço para fazer tudo.
No primeiro álbum do Babado Novo eu gravei Led Zeppelin. Você imagina a doideira! Para mim, o “Baldin de Gelo” é um reggaeton; a guitarra é um reggaeton.
Nunca encontrei limites. E nunca achei que uma música pudesse ser uma porta para dar um passo em outro movimento. Música é sempre uma oportunidade de você fazer parte daquela história.
Você está ali no jogo para servir as pessoas, para ser um mensageiro. A música tem essa coisa maravilhosa de unir gente, fazer pessoas sentirem emoções, marcar momentos. O estilo vai me levar para outro lugar.
E o que você tem ouvido ultimamente, Claudia?
Eu estou ouvindo muito meu álbum. É meio autocentrado isso, mas estou apaixonada por Especiarias. Muito, muito. O que aconteceu: eu ouvi o primeiro ato inteiro depois que ele ficou pronto, tive a oportunidade de ouvir com meus filhos em casa. Estou fazendo agora um show do Intemporal, que é mais romântico, mas também estou fazendo um show de micareta, de carnaval. E isso me dá a oportunidade de ver o público reagindo a esse primeiro ato.
Já o segundo ato é muito mais carnavalesco, muito mais para fora, sabe? Muito mais animado. E eu estou ouvindo muito ele — acho que embalado pelo clima. A gente já vai se aproximando do verão, estou na estrada com agenda de carnaval rolando simultaneamente com a turnê Intemporal, um trabalho meio terapêutico, mais romântico. Então, acho que o verão me trouxe o segundo ato. Estou ansiosa para os meus fãs escutarem o segundo ato. Eu estou me antecipando: só ouço Especiarias.”
Por que o álbum “Intemporal” é mais terapêutico?
Porque ele é todo sobre saúde mental. A gente veio de um período horrível para a humanidade, de ostracismo, que só enfraquece as relações, e acho que o grande poder da gente é o relacionamento. É colocar os cinco sentidos para jogo.
É tocar, cheirar, olhar no olho de alguém. Por mais que vídeochamada facilite a nossa comunicação e você possa escrever, nada substitui o nosso contato físico. A experiência fica mais vívida, mais forte depois.
Eu me lembro de você e você se lembra de mim porque a gente se encontrou fisicamente. Existe uma diferença muito grande no contato. A pandemia foi um momento horrível. Obviamente gerou uma coisa positiva, que é esse show, mas ele é meio uma reflexão poética do que aconteceu comigo ali.
Você estava nos Estados Unidos ou no Brasil quando veio a pandemia e o isolamento?
Eu estava no Brasil. A gente veio de um carnaval. Meu último show foi em 8 de março, se não me engano. Eu ia fazer um show no Ibirapuera e caiu uma tempestade horrorosa. Logo depois a gente encerrou tudo.
A gente já tinha o sinal de que, depois do carnaval, alguma coisa ia colapsar, e veio a pandemia. E esse show Intemporal reflete isso: esse meu momento de ostracismo.
Porque precisei buscar na minha introspecção uma razão para continuar. Eu sou uma pessoa de muita sorte, aliás, tenho uma família maravilhosa. Eu vivo do que amo. Eu amo cantar. Amo meus fãs. Vivo da minha paixão, que é a música. E minha paixão só existe porque tenho público, porque tenho gente na minha frente, porque promovo encontros. Isso não aconteceu na pandemia. Nunca experimentei uma dor tão grande. E trouxe isso para o palco. Tive a graça de subir no palco e transformar isso no Intemporal. É terapêutico por isso: porque digo para mim mesma que tudo passa.
Você fez terapia na pandemia?
Eu fiz terapia na pandemia e faço terapia até hoje, graças a Deus. Mas, eu comecei antes, e na pandemia ganhei uma nova consciência. Eu falei que o palco é terapêutico, mas isso é só uma maneira de descrever que rola um tratamento ali, de alguma forma, mas nada substitui a terapia.
Sua filha nasceu quase na pandemia, certo? Você estava vivendo o puerpério. Como foi isso?
Foi tenso demais. Tinha acabado de fazer um super carnaval que exaltava a força feminina. Eu estava naquela profusão de hormônios, trabalhando, cuidando da minha filha, e tendo uma percepção da maternidade que pode ser tóxica. Essa ideia de que a gente é superpoderosa, e não é. A mulher é vulnerável, é um ser humano. Cada mulher vive sua própria realidade. Não adianta colocar uma etiqueta chamada maternidade.
O meu pós foi bem complicado, e veio a pandemia. Voltei a trabalhar com cinco meses de parida. Fiz um puta carnaval, aquela adrenalina, endorfina, ocitocina… e de repente fechou tudo. E assim: o centro do meu propósito fazendo música é ver o público. Não é ter reconhecimento, não é aplauso, não é dinheiro. Nunca foi. E de repente não ver que as pessoas estão se encontrando ali… Porque fazer live, fazer show, ganhar seu dinheiro, tudo bem, mas não é por isso que eu canto. Não é por isso que amo cantar.
Então foi muito doido. Eu estava distante de mim, do meu propósito, da minha cabeça. E ao mesmo tempo, via minha família linda, meus filhos maravilhosos, que eu agradeço a Deus todos os dias, e pensava ‘como posso estar me sentindo desse jeito?’ Imagine a loucura de pensar isso.
O mundo todo passando por dificuldades e eu, em vez de ser grata, sentindo uma dor que eu não sabia explicar. Então fui me tratar, procurar ajuda, me sustentar com tudo que tinha, e transformar isso em arte no final.
Cláudia, você atingiu a marca de um bilhão de views no YouTube. Como está sendo isso?
Achei o máximo. Muito legal mesmo. Eu estava lá na Copa do Mundo. Isso não me faz melhor do que ninguém. Eu encontrei Pitbull, conheci ele. Se tornou um amigo. Conheci Jeniffer Lopez. Ela se tornou uma amiga. Não é networking, não é estar em todos os lugares correndo. Não é dar conta de tudo porque sou supermulher ou supermãe. É entender que, se você tem amor pelo que faz, você vai estar no lugar certo e as pessoas certas vão aparecer. Essas pessoas foram as pessoas certas. Eu agradeci a Deus por elas.
Você está morando nos Estados Unidos. Como está sua rotina com um filho de 16, outro de 13 e uma de 6 anos?
Eu amo meus filhos demais. E quando a gente ama, a gente consegue dar conta. Tenho um marido que é um paizão. Meu Deus… Eu não fiz nada para merecer a família que tenho. Minha família é incrível. Só consigo realizar tudo porque dou meus pulos, óbvio, mas também é graças a eles que são as melhores pessoas. Cada dia meus filhos são uma descoberta. Cada dia é um aprendizado.
Quando penso que arrasei com Davi, vem Rafael, adolescente. E depois Bela com 6 anos. São universos paralelos. E eu me divirto muito nesse processo. Porque, por mais que seja uma jornada que não é sobre mim, tem muito autoconhecimento nisso. Eu me fortaleço muito na minha relação com meus filhos.
Meu marido também… admiro ainda mais meu marido. Casei com um cara que já admirava muito, hoje admiro ainda mais, porque vejo nele mais do que um suporte, um superpai.”
Como vocês mantêm essa conexão no casamento por quase vinte anos?
É que a gente é um trio elétrico: eu, meu marido e Deus. A gente é imperfeito. Metaforicamente, joga a toalha molhada na cama, deixa a pasta de dente aberta… e a gente sabe que isso faz parte. No fim das contas, quando a luz do palco apaga, estamos lá um para o outro.
A gente não faz esforço. Sabe que é uma construção. Não existe alma gêmea, não existe casamento perfeito. A novela acaba no dia do casamento, o filme acaba no final feliz, mas não é assim. Isso é ilusão.
Casar é, às vezes, abrir mão de coisas que você quer fazer, ou fazer coisas que você não está com vontade. Isso faz parte do dia a dia. E assim a gente vai vivendo, se amando, se ajustando, se cuidando mutuamente.
Todo dia eu saio de casa e peço a Deus muita saúde para meu marido, porque ele é um superparceiro. Trabalha junto, mas é meu melhor amigo. A gente vai se aliançando naturalmente, todo dia. Procuro olhar para as diferenças, para a história dele. Não tem segredo: é viver junto.
A matéria acima foi produzida para a revista AnaMaria Digital (edição 1509, de 13 de fevereiro de 2026). Se interessou? Baixe agora mesmo seu exemplar da Revista AnaMaria nas bancas digitais: Bancah, Bebanca, Bookplay, Claro Banca, Clube de Revistas, GoRead, Hube, Oi Revistas, Revistarias, Ubook, UOL Leia+, além da Loja Kindle, da Amazon. Estamos também em bancas internacionais, como Magzter e PressReader.

