Ronnie Von: “Sei que tenho pouco tempo daqui para frente, mas não deixo de sonhar”
Anamaria

Por Lígia Menezes e Renan Pereira
Após pedir rescisão de contrato da RedeTV!, Ronnie Von afirma que a decisão foi tomada com consciência, ainda que atravessada por questões emocionais. “Não sei se emocionalmente eu pedi essa demissão, mas com toda a consciência, pode ter certeza”, diz. Aos 81 anos e com 60 de carreira, ele evita falar em prazos para um possível retorno à TV, mas confirma que propostas existem e serão analisadas com calma. “A televisão é algo que eu tenho muito carinho.”
Ao revisitar a própria trajetória, o apresentador aponta o início como o momento mais marcante. “Foi muito melhor do que eu podia imaginar”, resume, ao lembrar o sucesso rápido do primeiro programa e da primeira música. Em contraste, cita o período em que precisou se afastar por quase três anos devido a problemas de saúde como o trecho mais difícil. “As retomadas e os caminhos são sempre muito dolorosos”, lembra.
Em 2025, após três cirurgias, Ronnie enfrentou uma recuperação delicada, incluindo complicações decorrentes de um procedimento. Hoje, afirma estar estável. “A arritmia ficou perfeita e a parte cardíaca está toda em ordem”, diz.
Em casa, diz viver em função da família e sustentar-se na fé. “Um homem sem fé é um homem pela metade”, reflete.
Você pretende voltar à TV em breve? Pode nos falar sobre os próximos passos para a telinha?
Não vamos falar de tempo, porque eu acabei de pedir a rescisão de um contrato. Pedi demissão de uma emissora de televisão, onde, aliás, eu fui muito bem tratado. Não sei se emocionalmente eu pedi essa demissão, mas com toda a consciência, pode ter certeza. Na verdade, a partir disso existem claras propostas chegando, e, claro, serão todas analisadas, só que eu não posso precisar do tempo, quando vai ser, porque essas coisas demandam, de certa forma, alguma reflexão, algum tempinho, para a gente ver para onde vai e o que fazer. Mas a televisão é algo que eu tenho muito carinho.
Olhando para os 60 anos de carreira, quais momentos foram mais marcantes e quais se mostraram mais desafiadores?
O momento mais marcante seguramente foi o início, porque você imagina, claro, quando você se envolve com algum projeto ou com alguma atividade profissional, você sempre imagina o melhor. Só que foi muito melhor do que eu podia imaginar. Então, esse foi o momento talvez mais marcante da minha vida, que foi o início da minha carreira, o sucesso da primeira música gravada, do primeiro programa de televisão, tudo isso aconteceu muito rapidamente. E essa foi, de fato, a época em que eu posso dizer que foi a mais marcante, do lado bom. Do lado, vamos dizer, mais negativo, foi quando eu fiquei doente. Tive que me afastar da atividade profissional durante quase três anos. Isso foi muito duro, muito difícil, porque as retomadas e os caminhos são sempre muito dolorosos e muito difíceis de se voltar a caminhar.
Sua obra ganhará um musical inédito chamado “Ronnie Von – O Musical”. Pode nos contar como você tem contribuído para a construção desse projeto?
A minha contribuição para esse projeto é uma coisa simples, eu diria até simplista. As conversas são mais ou menos biográficas, eu falo da minha vida, eu falo das coisas das conquistas, dos apreços, dos desapreços das coisas com que eu me envolvi, os erros cometidos, os acertos, mas isso tudo em parte por entrevistas e por textos que já foram gravados agora. Fotos, enfim, essa coisa documental também é uma contribuição, sem dúvida alguma. É isso, eu acho que é por aí. Nada de ‘eu não vou me meter em músicas ou no roteiro’, pelo contrário, eu vou ler a sinopse, claro, já dei uma olhada, e a gente tem sempre que dar um brilho maior quando se faz um musical. Mas, minha contribuição é simples.
Como você avalia o cenário musical de hoje, no Brasil, onde há inúmeros movimentos culturais ocorrendo simultaneamente. Que tipo de música te agrada mais destas novas gerações?
Bom, houve uma época em que, de fato, vinha impresso em um disco de vinil que música era cultura, disco era cultura etc. Eu não vejo nenhum movimento cultural com o que se faz hoje de música no Brasil, ou que se referem à música no Brasil. Eu vejo movimentos comerciais, absolutamente comerciais. Uma música que me agrada é uma música que eventualmente não faria sucesso, pelo que eu vejo hoje, comercialmente, o que dá certo. Eu jamais seria capaz de fazer isso. Ou por falta de talento ou porque não gosto mesmo. A música que eu gosto é pouco mais, vamos dizer…Não diria elitista, longe disso, mas eu gosto muito de jazz, gosto de rock’n’roll, lógico, gosto de música erudita, principalmente do século 18. Agora… Movimento cultural eu não vejo nenhum, honestamente.
Após três cirurgias em 2025, você chegou a pensar em deixar o trabalho?
Não penso em deixar o trabalho por doença. Eventualmente, o que pode acontecer é um cansaço emocional após 60 anos de atividade profissional. Aos 81 anos, posso cansar por outros motivos, mas não físicos. Nosso trabalho é vender e receber emoção. No momento em que isso já não tiver mais nenhum sentido e eu me cansar, eu poderia parar, mas por enquanto não é a doença que vai me tirar da profissão.
Como está sendo o processo de recuperação e o que mudou na sua rotina de saúde?
O que mudou foi ter que tomar remédio, o que acho horrível. No começo eram 11 remédios, mas hoje são só quatro pela manhã. Na cirurgia, houve uma infelicidade acidental: colocaram uma sonda e furaram minha próstata, o que me fez urinar sangue por dois meses. Foi assustador, mas meu urologista explicou que a cicatrização seria lenta. Fora isso, a arritmia ficou perfeita e a parte cardíaca está toda em ordem.
O que inspirou a escolha do repertório de clássicos norte-americanos para o seu trabalho lançado em 2026?
Essa escolha é minha maior vingança em relação às gravadoras RV. Como fui “filhote de gravadora”, sempre vi que eles limitam os artistas entre os que dão prestígio e os que precisam vender discos. Sempre quis gravar standards americanos. O produtor Don Silva me apresentou a Sara Zeller, que canta maravilhosamente, e acabamos gravando 10 músicas juntos. Fiz isso por amor à arte, e todos os direitos autorais desse álbum vão para entidades das quais sou voluntário.
O que você ainda pretende conquistar em sua carreira?
O ser humano nunca está satisfeito e pensa sempre em coisas maiores, o que faz parte da nossa cultura. Com 81 anos, sei que tenho pouco tempo daqui para frente, mas não deixo de sonhar, pois a razão da vida é o sonho. Se você tira o sonho de um homem, tira a própria vida dele. Continuo sonhando alto com realizações afetivas e espirituais; sonho pequeno não bate em minha porta.
Pode nos contar um pouco sobre sua rotina familiar e sua vida em família?
Vivo em função da família, que é a base de tudo e se confunde com o amor. A família é o meu ninho. Tenho um filho que mora nos Estados Unidos e nos falamos quase todos os dias, e outros dois que moram aqui e estão sempre comigo. Além disso, sou casado há 40 anos com o amor da minha vida, que já era minha amiga. Nossa vida é muito em casa e de receber amigos, pois o amigo é a família que escolhemos.
O que move sua fé e quais são suas crenças espirituais?
Um homem sem fé é um homem pela metade. Não tenho uma definição religiosa específica; sou um ecumenista e minha religião são todas. Vejo que a religião serviu historicamente como um freio social quando ainda não havia o direito como conhecemos, mas hoje a questão versa sobre a fé em si. Para mim, o Deus é único, mas minha religião é plural.
A matéria acima foi produzida para a revista AnaMaria Digital (edição 1509, de 20 de fevereiro de 2026). Se interessou? Baixe agora mesmo seu exemplar da Revista AnaMaria nas bancas digitais: Bancah, Bebanca, Bookplay, Claro Banca, Clube de Revistas, GoRead, Hube, Oi Revistas, Revistarias, Ubook, UOL Leia+, além da Loja Kindle, da Amazon. Estamos também em bancas internacionais, como Magzter e PressReader.