Pernambuco falando para o mundo: As referências culturais do filme 'O Agente Secreto'
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Quem é pernambucano, logo que assiste ao filme “O Agente Secreto”, se arrepia inteiro com as referências de um Recife em 1977. Logo de cara, aparece um personagem que fez parte da infância carnavalesca de muita gente. A icônica La Ursa. Junto com ela, vem a música: “A La Ursa quer dinheiro, quem não dá é pirangueiro.” Antes que você, leitor, deixe nosso site para procurar o significado de pirangueiro, aqui vai: é o famoso mão de vaca, avarento. No entanto, são muitas as referências que o diretor (pernambucano, claro) Kleber Mendonça Filho utilizou e celebrou no longa. Como diz a música de Lenine, Brasil no Oscar é “Pernambuco falando para o mundo!”
Aliás, a primeira referência que a gente tem que aplaudir é o sotaque, que realmente está igual à vida real. Nada de tentativa equivocada e forçada, como a gente costuma ouvir em algumas novelas do eixo RJ-SP. Quem nasce em Salvador fala de um jeito, no Recife, de outro… Sem essa de achar que “de Guarulhos pra cima, é tudo igual: nortista”. Por favor, melhorem. Como diria o ‘filósofo contemporâneo cantante’ Bad Bunny, estudar Geografia é um bom começo.
As referências culturais do filme ‘O Agente Secreto’
Mais do que um thriller de espionagem, a obra é uma carta de amor à cultura pernambucana, repleta de símbolos que moldaram a identidade da capital nos anos 70. A narrativa utiliza o Carnaval como pano de fundo para a clandestinidade do protagonista. Em uma cena emblemática, o diretor promove o encontro do tradicional Bloco dos Garçons com os Guerreiros do Passo.
Embora o grupo de dança tenha sido fundado apenas nos anos 2000, Kleber utiliza a liberdade poética para exaltar os defensores do frevo, Patrimônio Cultural do Recife.
A tensão da ditadura militar é personificada em lendas urbanas que ganham vida na tela. O filme explora o mito da Perna Cabeluda, criatura que aterrorizava a cidade na época. Originalmente uma invenção do jornalista Raimundo Carrero para driblar a censura do Diário de Pernambuco, a lenda servia como metáfora para a violência que não podia ser noticiada. Em uma referência visual brilhante, o filme mostra um tubarão dissecado — clara homenagem aos 50 anos do clássico de Steven Spielberg — onde uma perna cabeluda é encontrada em seu interior, fundindo o medo do predador marinho ao terror político do período.
O cuidado com o figurino e os cenários também se destaca. Wagner Moura aparece vestindo a icônica camisa da Pitombeira dos Quatro Cantos, tradicional agremiação de Olinda, em uma cena que divide com o ator Thómas Aquino. Além disso, o filme imortaliza o Cine São Luiz, joia arquitetônica inaugurada em 1952, onde o sogro do protagonista trabalha. Ao unir o rigor histórico à fantasia popular, Kleber Mendonça Filho não apenas coloca Recife no centro do mapa cinematográfico mundial. Também preserva a memória de uma geração que resistiu através da arte e do simbolismo.
