Em A Voz de Hind Rajab, filme indicado ao Oscar, o tema supera a forma
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O conflito entre Israel e Palestina ainda deve gerar muitos outros filmes nos próximos anos, tamanha a urgência e a brutalidade do que segue acontecendo na região. Entre as obras que já começam a chegar, uma das que mais chamam atenção é A Voz de Hind Rajab, candidato da Tunísia ao Oscar de Melhor Filme Internacional em 2026, que escolhe um caminho radicalmente simples e devastador: transformar um pedido real de socorro em centro absoluto de sua narrativa.
A diretora Kaouther Ben Hania (As 4 Filhas de Olfa) escolhe deliberadamente confiar mais no peso do tema do que na forma e na construção cinematográfica. A estratégia funciona até certo ponto, mas cobra seu preço conforme o tempo passa. A encenação e o dispositivo narrativo parecem se repetir, ganhando um aspecto rígido, como se o filme ficasse preso à própria ideia inicial. Diante disso, o resultado é um desequilíbrio claro: o assunto cresce, mas a forma não acompanha na mesma proporção.
O recurso de acompanhar uma ligação telefônica remete inevitavelmente ao dinamarquês Culpa, pré-selecionado ao Oscar de Melhor Filme Internacional em 2018, mas aqui a comparação se desfaz rapidamente. Não há ficção, nem jogo de atuação: o que se ouve é uma voz real, registrada em meio a uma situação-limite. O desconforto que isso provoca não nasce de uma escolha questionável, mas da brutalidade do que está sendo exposto. A voz de Hind não é mero artifício dramático — é um documento sonoro que carrega urgência, medo e abandono. Se há algo que inquieta, não é o uso dessa voz, mas o fato de que ela exista, de que tenha sido necessária.
Talvez o aspecto mais perturbador de A Voz de Hind Rajab seja sua consciência da própria impotência. A arte aqui se espelha nos personagens: todos querem ajudar, mas ninguém consegue atravessar a barreira que separa empatia e ação. O filme nos coloca exatamente nesse lugar — sentados, atentos, solidários, mas incapazes de interferir, somos meras testemunhas dos horrores de um conflito que parece não ter fim.
Não é uma obra que busca comover pelo excesso de emoção e, talvez por isso, seu impacto seja mais seco do que devastador. Em suma, é uma obra necessária, incômoda e importante, que expõe a desumanização sistemática do povo palestino e nossa total impossibilidade de agir diante deste genocídio.
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