Em Dia D, Spielberg acredita que eles estão entre nós; estamos prontos para saber?
Cinebuzz

O cinema de Steven Spielberg (Os Fabelmans), quando fala sobre extraterrestres, sempre vai além deles. Desde Contatos Imediatos do Terceiro Grau, em 1977, passando por E.T. – O Extraterrestre (1982) e chegando a Guerra dos Mundos, em 2005, o diretor sempre utilizou visitantes de outros mundos para falar de algo muito mais humano.
Agora, mais de duas décadas depois de sua última incursão no gênero, Spielberg retorna ao tema com Dia D (Disclosure Day no original, traduzindo, Dia da Revelação), provavelmente seu filme mais maduro sobre vida extraterrestre — e também o mais direto. Não se trata mais de imaginar se eles existem, se são bons, nocivos, invasores determinados a destruir a Terra ou criaturas que caíram aqui por acidente. Para Spielberg, a questão passa a ser outra: o que aconteceria se descobríssemos que eles estão aqui e forças maiores sempre esconderam isso de nós?
É uma mudança significativa de perspectiva. O próprio diretor declarou recentemente que passou décadas evitando afirmar categoricamente a presença alienígena na Terra, mas que mudou de posição diante do que considera um conjunto avassalador de evidências circunstanciais. Dia D parece surgir justamente desse pensamento. Mais do que um blockbuster de ficção científica, o filme funciona como um exercício imaginativo sobre a revelação definitiva de uma verdade capaz de abalar governos, religiões e a própria percepção que temos de nós mesmos.
Escrito por David Koepp (Jurassic Park — O Parque dos Dinossauros) a partir de uma história original do próprio Spielberg, Dia D carrega uma sensação constante de obra pessoal. Ele parece dialogar diretamente com as crenças de seu criador. Não é difícil enxergar o longa como uma tentativa de responder perguntas que o acompanham há quase cinquenta anos: como reagiríamos diante da confirmação de que não estamos sozinhos? Quem decide quando a humanidade está pronta para saber a verdade? As pessoas merecem saber?
Todos orbitam uma intrincada narrativa de espionagem governamental, segredos corporativos e tecnologia extraterrestre. Mas, como quase sempre acontece no cinema de Spielberg, o interesse não está nos mecanismos da conspiração em si, e sim nas pessoas que acabam presas dentro dela. São personagens comuns tentando compreender algo grande demais para ser assimilado. Nesse sentido, está a personagem da ex-freira interpretada por Eve Hewson (Por Trás de Seus Olhos) que chega a questionar se Deus teria criado outras formas de vida além da humana, resumindo um dos conflitos centrais do filme: não o choque científico da descoberta, mas suas consequências emocionais, culturais e espirituais.
Spielberg sempre demonstrou enorme interesse por indivíduos atraídos pelo desconhecido, e aqui volta a explorar esse arquétipo com uma sensibilidade rara para o cinema contemporâneo. Emily Blunt — provavelmente na melhor atuação de sua carreira — constrói uma personagem fascinante porque encara algo extremamente difícil de representar em cena: a sensação de estar sentindo alguma coisa sem conseguir nomeá-la. Ela teme a si mesma. Recusa aquilo que vê, aquilo que escuta e aquilo que seu corpo parece saber antes de sua mente compreender. É uma protagonista que passa boa parte da narrativa tentando fugir do impossível, enquanto uma força invisível a empurra justamente em direção a ele.
O cineasta conduz essas questões com notável paciência e vai revelando tudo, camada após camada, sem jamais entregar todas as respostas de imediato. Alguns espectadores podem se incomodar com essa estrutura fragmentada e com a demora para que certas conexões se tornem evidentes. Ainda assim, a montagem mantém o ritmo em constante movimento. O filme possui urgência desde seus primeiros minutos e constrói um terceiro ato genuinamente tenso, daqueles que lembram por que Spielberg continua sendo um dos grandes mestres da narrativa cinematográfica.
Ainda assim, Dia D impressiona justamente por lembrar um tipo de superprodução cada vez mais raro. É um blockbuster movido por ideias novas e atuais — que bizarramente coincidiram com um caso de aparição de OVNI no interior do Paraná. Um filme de perseguição e suspense que encontra espaço para contemplação, encantamento e reflexão. Não possui a escala monumental de Jurassic Park, nem a força aventureira de Indiana Jones ou o tom épico de O Resgate do Soldado Ryan. Tampouco parece interessado em competir com eles. Seu objetivo é outro.
Se Spielberg costuma dividir sua carreira entre o cineasta dos grandes espetáculos populares e o autor interessado em dramas mais sombrios e adultos, Dia D funciona como uma ponte entre essas duas fases. Há o deslumbre infantil que marcou E.T., mas também existe a maturidade do diretor que realizou Munique e Ponte dos Espiões. É um filme sobre extraterrestres que, no fundo, fala sobre humanidade.
Talvez por isso sua mensagem mais poderosa não tenha nada a ver com discos voadores ou conspirações governamentais. Em um mundo marcado por guerras, radicalizações e uma crescente incapacidade de ouvir quem pensa diferente, Spielberg sugere que a verdadeira revolução não virá das estrelas. Virá da empatia.
Em suma, Dia D parte de uma hipótese extraordinária — a confirmação de vida extraterrestre inteligente — para chegar a uma conclusão profundamente terrena: antes de aprender a conviver com outras formas de vida, precisamos reaprender a conviver uns com os outros.
