Controle de redes sociais é violência contra a mulher? Pesquisa traz alerta
Anamaria

Mexer no celular do parceiro, pedir senha da rede social ou exigir acesso a conversas aparece, para muita gente, como “coisa de casal”. Mas uma pesquisa Datafolha, feita a pedido do Movimento Mulher 360, acende um alerta: o controle digital também entra na discussão sobre violência contra a mulher.
O levantamento ouviu 2.004 pessoas com mais de 16 anos no Brasil e mostrou que apenas 44% dos brasileiros classificam o controle de redes sociais como uma forma de violência. Ou seja: menos da metade reconhece que exigir senhas, vigiar mensagens e monitorar contatos pode ferir a liberdade e a privacidade feminina.
O dado fica ainda mais preocupante quando a pesquisa mostra que 41% consideram esse comportamento problemático, mas não o chamam de violência. Outros 15% tratam a situação como algo normal entre casais. Na prática, esse olhar esconde sinais de violência psicológica que podem começar de forma silenciosa e ganhar força dentro da relação.
Violência contra a mulher também aparece no celular
A diretora-executiva do Movimento Mulher 360, Margareth Goldenberg, explica que muitos comportamentos abusivos ainda ganham uma embalagem de afeto. “Os dados mostram que ainda existe uma compreensão limitada sobre comportamentos de controle que acontecem dentro dos relacionamentos. Muitas vezes, práticas abusivas são interpretadas como demonstrações de afeto, cuidado ou proteção, quando, na realidade, representam restrições à liberdade, à privacidade e à autonomia das mulheres”, afirma.
Essa confusão pesa porque o abuso nem sempre começa com gritos, ameaças ou agressões físicas. Às vezes, ele aparece em frases como “me passa sua senha”, “com quem você está falando?” ou “por que você curtiu essa foto?”. Quando a mulher passa a explicar cada passo, apagar conversas para evitar brigas ou se afastar de pessoas queridas, o relacionamento já pode ter cruzado um limite.
Por isso, reconhecer o controle de redes sociais como alerta não significa transformar qualquer incômodo em acusação. Significa observar quando o cuidado vira vigilância, quando o ciúme vira regra e quando a confiança dá lugar ao medo.
Por que o controle vira abuso?
A pesquisa também mostra que a dificuldade de identificar esses sinais se espalha pelo país. No Sudeste, 45% dos entrevistados classificam o controle digital como violência. No Nordeste e no Norte, o índice é de 44%. No Sul, chega a 42%. Já no Centro-Oeste, cai para 40%. As diferenças são pequenas, mas revelam que a naturalização do controle aparece em todas as regiões.
Para Margareth, a violência contra a mulher já deixou de ser vista apenas como tema privado. “A violência contra mulher virou questão central de segurança pública e social que exige conscientização, comprometimento e atuação coletiva para ser superada”, conclui.
O alerta vai além do relacionamento
O estudo ainda aponta outro dado forte: 61% dos brasileiros citaram a violência contra a mulher como a forma de criminalidade mais grave do país, à frente de tráfico de drogas e assalto à mão armada. Ainda assim, formas mais sutis de controle continuam menos reconhecidas.
Para o Movimento Mulher 360, empresas, famílias, escolas e grupos de convivência precisam ampliar a conversa. Afinal, quanto mais cedo uma pessoa entende que vigiar, isolar e controlar não são demonstrações de amor, maior a chance de interromper um ciclo abusivo antes que ele avance.
Resumo: O controle nem sempre chega fazendo barulho. Às vezes, aparece disfarçado de cuidado, ciúme ou proteção. A pesquisa mostra que o digital também pode virar espaço de vigilância — e reconhecer esse sinal cedo pode mudar o rumo de uma relação.
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