Gestão de carreira : por que esperamos a carreira adoecer para pedir ajuda?
Anamaria

Ensinar outras pessoas a fazer gestão de carreiras, foi, durante mais de vinte anos, parte da minha própria carreira. Parte do meu papel como executiva foi ajudar profissionais a se desenvolverem, ensinando-os a fazer gestão de carreiras. Homens e mulheres me procuravam para conquistar uma promoção, liderar equipes, resolver conflitos, ampliar resultados ou planejar os próximos passos da carreira. As conversas eram sobre crescimento.
No último ano, porém, comecei a viver algo diferente. Hoje, a maioria das pessoas que chega até mim não quer crescer primeiro. Quer simplesmente voltar a respirar.
Chegam esgotadas, sem conseguir dormir, convencidas de que perderam a competência que levaram anos para construir. Algumas pensam em pedir demissão sem saber o que farão depois. Outras já não conseguem imaginar um futuro no trabalho que ocupam. Há ainda quem esteja convencida de que não merece mais o cargo que conquistou. Escrevi recentemente sobre o que acontece quando nossa identidade fica excessivamente ligada ao papel profissional, em O que sobra quando o papel termina.
Foi observando essas histórias que uma pergunta passou a me acompanhar: por que esperamos tanto para pedir ajuda quando a carreira deixa de fazer bem?
Gestão de carreira: por que demoramos tanto para pedir ajuda?
Quanto mais observo essas histórias, mais percebo quatro padrões que ajudam a explicar esse atraso.
1. Porque aprendemos que dar conta faz parte do nosso papel
O problema é que heroínas também se esgotam. Esse esgotamento tem sido cada vez mais discutido, especialmente quando evolui para o burnout.
Quando a carreira começa a pesar, a reação quase nunca é pedir ajuda. Trabalhamos mais horas, fazemos mais cursos, tentamos ser mais pacientes, produzimos ainda mais. Como se a solução estivesse sempre em fazer um esforço adicional.
Existe uma crença silenciosa de que pessoas competentes resolvem seus próprios problemas. Mas talvez a competência também esteja em reconhecer quando o esforço deixou de produzir resultado e passou apenas a produzir desgaste.
2. Porque sempre existe alguém que parece precisar mais de nós
Percebo isso principalmente entre mulheres que ocupam posições de liderança.
Elas encontram tempo para conversar com um colaborador inseguro, ajudam um colega a preparar uma apresentação importante, acompanham um filho em um momento difícil, ligam para os pais, organizam a rotina da casa. Mas adiam, pela terceira semana seguida, aquela conversa que poderia mudar o rumo da própria carreira.
Pensar em si parece egoísmo.
Só que a carreira nunca fica restrita ao horário de trabalho. Ela influencia o humor com que chegamos em casa, a qualidade do nosso sono, nossa autoestima e até a forma como nos relacionamos com quem amamos. Quando ela vai mal, dificilmente o restante da vida permanece intacto.
3. Porque esperamos que o problema se resolva sozinho
“Depois das férias melhora.”
“Quando mudar o chefe vai passar.”
“No próximo projeto as coisas entram nos eixos.”
Essas frases aparecem com frequência nas conversas que tenho. Às vezes, elas até se confirmam. Na maioria das vezes, não.
Enquanto esperamos que alguma coisa aconteça, escolhemos permanecer exatamente onde estamos. E a ausência de decisão também produz um futuro — normalmente o mesmo presente, só que mais desgastado. Aliás, já escrevi sobre como nossas escolhas convivem com aquelas que a vida faz por nós.
Continuamos repetindo os mesmos padrões, aceitando situações que já não fazem sentido e esperando que o tempo resolva aquilo que talvez só uma decisão consiga transformar.
4. Porque confundimos pedir ajuda com admitir fracasso
Esse talvez seja o padrão mais silencioso de todos.
Eu enxergo justamente o contrário.
Pedir ajuda não elimina os problemas, mas devolve perspectiva. Quando estamos emocionalmente envolvidos, fica muito mais difícil enxergar alternativas. Alguém de fora não vive a nossa realidade, mas consegue perceber padrões que deixamos de ver.
Talvez essa seja a maior mudança que observei no último ano. Antes, as conversas eram sobre desenvolvimento. Hoje, muitas começam pela reconstrução.
Olhar para a carreira deveria ser como fazer um check-up anual de saúde. Não esperamos sentir uma dor insuportável para marcar uma consulta. Fazemos exames preventivos para identificar pequenos sinais antes que eles se transformem em problemas maiores.
Com a carreira, poderia ser igual. A gestão de carreira também deveria ser preventiva, e não apenas uma reação aos momentos de sofrimento.
De tempos em tempos, deveríamos nos perguntar não apenas se estamos “bem”, mas se ainda fazemos um trabalho de que gostamos, se somos reconhecidas e remuneradas de forma justa pelo valor que entregamos, se continuamos aprendendo e, principalmente, se nossos valores ainda estão alinhados com a forma como escolhemos trabalhar e viver.
Cuidar da carreira não deveria começar quando já não conseguimos respirar. Deveria fazer parte da vida, com a mesma naturalidade com que fazemos um check-up para cuidar da saúde. Porque, quando esperamos os sintomas aparecerem, quase sempre o tratamento também se torna mais difícil.