Mais energia ou perigo silencioso? A verdade por trás do 'chip da beleza'
Anamaria

O uso de hormônios anabólicos, como a testosterona, por mulheres tem ganhado espaço nas redes sociais, muitas vezes associado a promessas de mais energia, emagrecimento rápido e ganho de massa muscular. Mas o que a medicina realmente diz sobre isso? Especialistas ouvidas por AnaMaria alertam: hormônio não é suplemento e o uso sem indicação pode trazer consequências sérias – algumas irreversíveis.
Testosterona também é hormônio feminino, mas em outra medida
Apesar de muita gente associar a testosterona apenas ao organismo masculino, ela também faz parte da fisiologia feminina. O hormônio é produzido em pequenas quantidades pelos ovários e pelas glândulas suprarrenais e tem papel importante na saúde da mulher.
No entanto, diferentemente do que acontece com os homens, não existe um valor único e universal de testosterona considerado ideal para mulheres. Isso porque os níveis variam conforme idade, fase do ciclo menstrual, método do exame e até o laboratório.
“Na prática clínica, valorizamos muito mais os sintomas do que o número do exame”, diz Paula Fettback, ginecologista especialista em reprodução humana pela Febrasgo.
Ou seja, ter testosterona baixa, isoladamente, não costuma representar risco grave à saúde, especialmente se a mulher não apresenta queixas. Em alguns casos, pode haver diminuição da libido, cansaço ou perda de massa muscular, mas isso sempre precisa ser avaliado dentro de um contexto mais amplo.
Quando a reposição de testosterona é indicada?
As sociedades médicas são claras e cautelosas quanto ao uso de testosterona em mulheres. De acordo com a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e entidades internacionais, a única indicação com evidência científica consistente é o tratamento do Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo (TDSH) em mulheres na peri ou pós-menopausa.
Esse diagnóstico é clínico e envolve três critérios principais:
- Redução persistente ou ausência de desejo sexual
- Sofrimento pessoal ou impacto na qualidade de vida
- Duração mínima de seis meses
Além disso, é preciso excluir outras causas comuns, como alterações emocionais, dor durante a relação, efeitos de medicamentos, problemas de relacionamento ou distúrbios do sono.
“No caso de TDSH, a testosterona pode fazer parte do tratamento, sempre em doses baixas, próximas às fisiológicas femininas, e com acompanhamento rigoroso”, detalha Paula. “Fora desse contexto, não há respaldo científico para uso com fins estéticos, de performance, emagrecimento ou ‘mais energia’”, complementa Graziela Canheo, ginecologista e obstetra especialista em reprodução humana da La Vita Clinic.
O que é o TDSH e qual a relação com a menopausa?
O Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo é uma condição multifatorial. Na pós-menopausa, a queda hormonal pode contribuir para a redução da libido, mas isso não significa que a testosterona seja uma solução universal.
“A libido feminina é complexa. A testosterona pode ajudar algumas mulheres, mas nunca substitui uma abordagem global”, explica Paula. Avaliar saúde emocional, relacionamento, outros hormônios e qualidade de vida é parte essencial do cuidado.
“Chip da beleza”: o nome engana, mas o risco é real
As especialistas fazem um alerta importante: “chip da beleza” não é um termo médico. Na maioria dos casos, ele se refere ao uso da gestrinona, um hormônio sintético desenvolvido originalmente para tratar endometriose e que se converte em androgênio no organismo.
O problema não está na via de administração (como implantes subdérmicos), mas no uso indiscriminado de substâncias androgênicas e anabolizantes, muitas vezes em combinações sem respaldo científico.
Entre os principais riscos estão:
- Acne severa
- Aumento de pelos e queda de cabelo
- Alterações menstruais e infertilidade
- Alterações no colesterol e maior risco cardiovascular
- Sobrecarga e doenças do fígado
- Engrossamento permanente da voz
- Aumento do clitóris (alteração irreversível)
“Não existe hormônio seguro quando usado sem indicação e sem acompanhamento médico”, reforça Graziela.
Reposição não é anabolizante
Para a endocrinologista Tassiane Alvarenga, a diferença entre reposição hormonal e uso estético de anabolizantes é conceitual, biológica e ética.
“A reposição busca equilíbrio. O anabolizante busca excesso”, resume. Enquanto a reposição tenta restaurar níveis fisiológicos para aliviar sintomas e proteger a saúde, o uso estético expõe o corpo feminino a doses suprafisiológicas, que ele não foi desenhado para tolerar.
Caminhos seguros para ter mais disposição e força
Antes de recorrer a hormônios, é fundamental investigar as causas do cansaço e da dificuldade de ganhar massa muscular. Muitas vezes, o problema está em sono ruim, alimentação inadequada, deficiência de vitaminas, estresse ou excesso de restrição calórica.
Treino de força bem orientado, ingestão adequada de proteínas, correção de deficiências nutricionais e cuidado com o sono e a saúde emocional fazem toda a diferença.
“Hormônio não é estratégia estética. É um sinalizador biológico potente. Usá-lo sem critério cobra um preço alto e, muitas vezes, silencioso”, conclui Tassiane.
A matéria acima foi produzida para a revista AnaMaria Digital (edição 1506, de 30 de janeiro de 2026). Se interessou? Baixe agora mesmo seu exemplar da Revista AnaMaria nas bancas digitais: Bancah, Bebanca, Bookplay, Claro Banca, Clube de Revistas, GoRead, Hube, Oi Revistas, Revistarias, Ubook, UOL Leia+, além da Loja Kindle, da Amazon. Estamos também em bancas internacionais, como Magzter e PressReader.
