O instante após o nascimento que pode impactar o bebê (e a mãe) mais do que você imagina
Anamaria

Quem já passou pelo nascimento de um filho costuma guardar lembranças muito específicas daquele instante: a meia-luz da sala, o choro que anuncia a chegada, o corpo ainda quente apoiado no peito. Para muitas mulheres, é um momento em que o tempo parece desacelerar. Mesmo cercada de profissionais, equipamentos e protocolos, há uma sensação íntima de encontro.
É nesse intervalo tão curto quanto simbólico, logo após o parto, que acontece o que especialistas chamam de “hora de ouro”. Um período que vai muito além da emoção e tem impacto direto na adaptação do bebê, no início da amamentação e na construção do vínculo entre mãe e filho.
O que é a hora de ouro?
A hora de ouro corresponde aos primeiros 60 minutos após o nascimento, quando o bebê permanece em contato pele a pele contínuo com a mãe, sempre que possível, sem interrupções desnecessárias. É o momento em que o recém-nascido enfrenta a maior transição fisiológica da vida: sai de um ambiente estável para um mundo cheio de estímulos, luz, sons e novas exigências para respirar, circular o sangue e manter a própria temperatura.
“A primeira hora de vida é o primeiro capítulo da história entre mãe e filho e ele começa no colo”, diz Elisabeth Fernandes, pediatra da Sociedade Brasileira de Pediatria. Em entrevista à AnaMaria, a especialista explica que o contato imediato oferece ao bebê referências que ele reconhece, como cheiro, batimentos cardíacos e voz materna, ajudando a atravessar essa transição com mais segurança.
“A literatura mostra que, quando essa adaptação ocorre com calma, calor, toque e voz familiar, há melhor estabilidade clínica e emocional — para o bebê e para a mãe”, detalha Paulo Telles, pediatra da SBP.
Corpo com corpo
O contato pele a pele logo após o parto traz benefícios físicos mensuráveis. A respiração tende a se regular com mais facilidade, os batimentos cardíacos ficam mais estáveis e o risco de hipotermia diminui, já que o corpo materno funciona como um regulador térmico natural.
“O corpo da mãe é o primeiro abrigo do bebê fora do útero”, diz Elisabeth. Além disso, o contato reduz o estresse do recém-nascido, diminui o choro e contribui para a prevenção da hipoglicemia.
Há também efeitos emocionais importantes. Segundo Telles, o toque precoce está associado a níveis mais baixos de cortisol, o hormônio do estresse, e à liberação de ocitocina, ligada ao vínculo, ao bem-estar e à regulação emocional. Essa sensação inicial de acolhimento ajuda o bebê a se sentir seguro no novo ambiente.
O início da amamentação
Do ponto de vista da amamentação, a primeira hora é considerada um período especialmente sensível. Quando o recém-nascido é colocado pele a pele, ele ativa reflexos primitivos que o ajudam a buscar a mama de forma instintiva, com maior chance de uma pega espontânea.
Segundo a fisioterapeuta Alessandra Paula, especialista em pós-parto e aleitamento humano e idealizadora da Clínica CRIA, esse primeiro contato favorece a liberação de ocitocina na mãe, hormônio essencial para a ejeção do leite, além de estimular a produção do colostro — um alimento concentrado, rico em anticorpos e fundamental para a proteção do bebê nos primeiros dias.
Estudos também associam a amamentação iniciada na primeira hora a maior duração do aleitamento materno exclusivo e a menor risco de infecções ao longo dos primeiros meses de vida.
Apesar de todos os benefícios, a especialista destaca que esse momento não deve se transformar em mais uma fonte de cobrança ou culpa.
“É fundamental que a mãe saiba que ela não precisa ‘performar’ na hora dourada”, diz Alessandra. Segundo ela, o mais importante é a presença. Mesmo que o bebê não faça uma mamada longa, o simples contato pele a pele já é suficiente para iniciar processos hormonais e emocionais importantes.
Além da sala de parto
Mesmo em partos cesárea, a hora de ouro é possível sempre que mãe e bebê estiverem clinicamente bem. O contato pode acontecer ainda na sala cirúrgica ou na recuperação, e procedimentos de rotina podem ser adiados.
Quando a hora de ouro não acontece, isso não define o futuro da relação. “Não é um único momento que determina a história de uma mãe com seu bebê”, diz Alessandra. O vínculo se constrói ao longo dos dias, no colo, no toque, no olhar e no cuidado.
A hora de ouro não é luxo nem regra rígida. É cuidado baseado em evidência, vivido no ritmo possível de cada nascimento. Um começo que importa, mas que não carrega a responsabilidade de definir tudo. Porque, naquele primeiro encontro — no colo, no toque, no silêncio — nasce um bebê, mas nasce também uma relação que segue sendo construída todos os dias.
A matéria acima foi produzida para a revista AnaMaria Digital (edição 1510, de 27 de fevereiro de 2026). Se interessou? Baixe agora mesmo seu exemplar da Revista AnaMaria nas bancas digitais: Bancah, Bebanca, Bookplay, Claro Banca, Clube de Revistas, GoRead, Hube, Oi Revistas, Revistarias, Ubook, UOL Leia+, além da Loja Kindle, da Amazon. Estamos também em bancas internacionais, como Magzter e PressReader.
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