Quando o sucesso deixa de ser suficiente: a pedrinha no scarpin
Anamaria

Existe um momento silencioso na carreira de muitas mulheres quando o sucesso deixa de ser suficiente. O cargo está lá, o salário também, mas algo começa a incomodar. Às vezes é do tamanho de uma pedrinha no sapato que tentamos ignorar. No entanto, há momentos em que o pé já está latejando de dor no scarpin salto agulha tamanho 10.
Nessa hora é impossível não se perguntar “será que é isso mesmo que eu quero continuar fazendo?” Ou pior: “quem sou eu nesse mundo?”
Eu fui uma dessas mulheres. Por anos me defini pelo cargo que ocupava, pela empresa onde trabalhava, pelos títulos acadêmicos e pelos principais feitos da minha carreira.
Precisei criar muitos calos na vida para entender qual era meu papel nesse mundo e começar uma jornada de descoberta que ultrapassasse os limites da carreira de uma executiva de multinacional brasileira. Deixei tudo para trás. Hoje escrevo, dou mentoria de carreiras e trago a experiência do mundo corporativo para esta coluna, com um olhar sobre o que poderia ser diferente para que nós, mulheres, tivéssemos mais chances de alcançar o sucesso.
Aliás, o que é sucesso?
Difícil responder, né? Alcançar um cargo alto em uma empresa de prestígio? Ter um salário que dê para pagar todas as contas com sobra para uma extravagância ocasional? Ou não precisar nem trabalhar? E a família? Sucesso é ter aquela família de comercial de margarina ou o direito (e o poder) de escolher não ter filhos? Casa própria, viagens interessantes, carro na garagem contam como sucesso?
Por um tempo, provavelmente, sim.
A definição do que é sucesso é pessoal (influenciável, tá bem), e deve evoluir à medida que amadurecemos na vida. Talvez em algum ponto seja sobre ter autonomia sobre todas essas questões: ser uma mulher reconhecida (no que quer que se escolha fazer), sem viver de contra-cheque em contra-cheque e poder decidir mudar de rumo quando valores individuais estejam sendo ameaçados.
O interessante é que essas mudanças normalmente começam de um lugar de desconforto, um pequeno incômodo no fim do dia, um domingo à noite meio deprê antecipando a segunda-feira por vir.
Pode não ser com a vida profissional, como foi o meu caso, mas com a tripla jornada de trabalho, o papel solitário de cuidar dos pais idosos, a dificuldade de se posicionar em um ambiente predominantemente masculino ou, quem sabe, em relacionamentos que começam a parecer um pouco tóxicos.
O que importa é que, a cada 15 dias, essa coluna trará algum desses temas para refletir sobre como se organizar para descartar aquilo que não serve mais na vida e descobrir o que é sucesso, satisfação, um lugar mais pleno para se viver.
Quem vem comigo nessa conversa?
Eu sou a Renata. Durante 24 anos fui executiva em consultoria de gestão. Hoje sou escritora e mentora de carreiras. Sou carioca e apaixonada por sol e, talvez por isso, interessada em conversas sobre as escolhas, nem sempre fáceis, da vida adulta feminina.
