Autismo na vida adulta: entre o autoconhecimento e o risco do hiperdiagnóstico
Bons Fluidos

Esse movimento trouxe avanços importantes. Durante décadas, muitas pessoas cresceram sentindo-se diferentes, mas sem uma explicação clara para isso. Para alguns adultos, receber um diagnóstico tardio de Transtorno do Espectro Autista (TEA) pode trazer algo que muitos descrevem como um alívio profundo. Experiências que antes eram interpretadas como falhas pessoais passam a ser compreendidas como diferenças no funcionamento neurológico.
O psicólogo Marcelo Oliveira, especialista em transtornos do neurodesenvolvimento, chama atenção para um ponto que costuma passar despercebido quando o tema é discutido socialmente. Conversei com ele para adentrar mais profundamente neste tema.
Segundo ele, existe uma tendência cultural de associar o autismo apenas à infância. “É interessante como atualmente parece que nos habituamos a abordar o TEA como um transtorno que acomete apenas crianças, e muitas vezes nos esquecemos que essas crianças irão se tornar adolescentes e adultos”, explica o psicólogo. Ele lembra que, além disso, muitos adultos vivem hoje com características do espectro sem nunca terem recebido uma avaliação formal.
Essa invisibilidade histórica tem diversas razões. Uma delas é que muitos adultos desenvolvem ao longo da vida estratégias sofisticadas de adaptação social. O próprio Marcelo Oliveira destaca que a detecção do transtorno nessa fase da vida costuma ser mais desafiadora justamente por causa dessas estratégias de compensação.
“Em muitos casos, o diagnóstico se torna mais difícil por conta das chamadas máscaras sociais. Muitos adultos acabam aprendendo a camuflar suas dificuldades e preferem não investigar profundamente a possibilidade do transtorno”, afirma.
Na prática, isso significa que comportamentos relacionados ao espectro acabam sendo interpretados de outras maneiras. Timidez, introspecção, traços de personalidade ou simplesmente um estilo mais reservado de interação social passam a ser explicações comuns para aquilo que, em alguns casos, pode estar ligado a um funcionamento neurológico diferente.
A literatura científica descreve esse fenômeno como camuflagem social, ou masking. Trata-se de um processo em que o indivíduo observa padrões de comportamento social e passa a reproduzi-los conscientemente para se adaptar melhor aos ambientes em que vive.
É como se o cérebro estivesse constantemente traduzindo códigos sociais. Enquanto para algumas pessoas certas interações são intuitivas, indivíduos no espectro podem precisar processar conscientemente elementos que para os outros são automáticos: qual o momento adequado para falar, quanto tempo manter contato visual ou como interpretar ironias e ambiguidades.
Esse esforço cognitivo contínuo pode gerar grande desgaste mental. Não é raro que adultos cheguem ao diagnóstico depois de anos lidando com ansiedade, sensação de inadequação social ou esgotamento emocional.
De acordo com Marcelo Oliveira, quando o transtorno se manifesta na vida adulta, ele geralmente envolve alguns pilares característicos. “Basicamente, o autismo em adultos costuma afetar áreas como a interação social, a presença de comportamentos repetitivos ou interesses muito específicos e também algum grau de sensibilidade sensorial”, explica.
Essas características fazem parte de um conjunto mais amplo de critérios utilizados no diagnóstico clínico. A ciência entende hoje o autismo como uma condição do neurodesenvolvimento, ou seja, uma forma particular de organização cerebral presente desde o início da vida.
Pesquisas em neurociência apontam diferenças em redes neurais relacionadas ao processamento sensorial, à integração social e à flexibilidade cognitiva. Em muitas pessoas no espectro, áreas associadas à detecção de padrões e à atenção a detalhes mostram funcionamento particularmente eficiente, o que ajuda a explicar por que alguns indivíduos apresentam talentos marcantes em áreas como tecnologia, ciência, música ou artes visuais.
No entanto, junto com o aumento da conscientização sobre o autismo em adultos, surgiu também um fenômeno que preocupa profissionais da área: o hiperdiagnóstico.
Nas redes sociais, multiplicam-se vídeos e listas simplificadas que prometem identificar autismo em poucos minutos. Frases como “se você faz essas cinco coisas, talvez seja autista” tornaram-se comuns. Embora muitas dessas iniciativas tenham a intenção de ampliar o debate, elas podem gerar um efeito colateral importante: transformar características humanas comuns em diagnósticos psiquiátricos.
Gostar de rotina não define autismo. Ser introspectivo também não. Sentir desconforto em ambientes sociais tampouco.
A psiquiatria e a psicologia clínica trabalham com algo muito mais complexo do que traços isolados. O diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista envolve uma avaliação cuidadosa do desenvolvimento ao longo da vida, incluindo histórico desde a infância, impacto funcional real e padrões persistentes de comunicação e comportamento.
Marcelo Oliveira ressalta que esse cuidado diagnóstico é essencial para evitar simplificações. Para ele, reconhecer os sinais é importante, mas o diagnóstico precisa sempre ser conduzido com responsabilidade clínica.
Quando o diagnóstico é confirmado, o acompanhamento profissional torna-se uma etapa fundamental. “Uma vez que o adulto recebe o diagnóstico, o acompanhamento psicoterápico é muito importante, especialmente abordagens como a Terapia Cognitivo-Comportamental, que pode ajudar na organização emocional, nas habilidades sociais e na adaptação às demandas do cotidiano”, explica o psicólogo.
Talvez o grande desafio atual seja encontrar equilíbrio entre dois extremos. Durante muito tempo, o autismo foi subdiagnosticado e mal compreendido, especialmente em adultos e em mulheres. Hoje, em alguns contextos, corre-se o risco oposto: diluir o conceito a ponto de ele perder precisão científica.
Compreender o autismo exige algo que a ciência sempre pede de nós: curiosidade, sensibilidade e rigor. Reconhecer a diversidade neurológica humana é fundamental, mas garantir diagnósticos responsáveis também é uma forma de cuidado. Afinal, quando falamos de saúde mental, precisão não é apenas um detalhe técnico é uma questão de respeito às pessoas e às suas histórias.
Sobre a autora
Jéssica Martani é médica psiquiatra, especialista em TDAH, saúde mental e regulação emocional. Coordena a pós-graduação em TDAH do Instituto TDAH, reconhecida pelo MEC, em parceria com a Universidade Anhanguera. É colunista da Bons Fluidos (Editora Caras) e criadora do canal Brilhantemente, onde traduz temas complexos e reflexões acessíveis para quem busca equilíbrio emocional e transformação pessoal. Saiba mais em Instagram e YouTube.
Leia também: “Autismo, TDAH e lazer: Como o Brasil quer transformar a experiência de viajantes neuroatípicos”