Como o Parkinson interfere no reconhecimento da voz e das emoções?
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Conhecida principalmente pelos tremores e alterações motoras, a doença de Parkinson também pode comprometer a capacidade de reconhecer emoções expressas na voz. Essa dificuldade está relacionada ao lado do cérebro inicialmente afetado pela doença e pode influenciar inclusive a resposta aos tratamentos.
Os impactos do Parkinson no reconhecimento de emoções na voz foram estudados em um artigo publicado na Neurodegenerative Diseases. A investigação avaliou o papel da assimetria dos sintomas de lados opostos do cérebro nessa dificuldade, a partir das respostas de 45 participantes. Destes, 15 apresentavam diagnóstico recente, 15 estavam em fase avançada e 15 eram voluntários saudáveis.
Os resultados, então, apontaram redução do desempenho de reconhecimento emocional vocal entre aqueles com predominância de sintomas motores à esquerda. Ademais, mesmo com o tratamento, indivíduos com manifestações nesse lado do corpo tinham maior dificuldade em recuperar seu processamento de emoções na fala.
“Para quem tinha sintomas do lado esquerdo e com mais tempo de doença, foi pior ainda este reconhecimento”, observa o neurologista André Felicio, do Einstein Hospital Israelita. “Além disso, as medicações que aumentam dopamina parecem piorar isso em quem tem sintomas do lado esquerdo, controlado pelo lado direito do cérebro.”
Portanto, isso sugere que o lado de início dos sintomas no Parkinson não afeta apenas a forma em que eles se manifestarão, mas também as respostas aos tratamentos mais comuns. “A dificuldade em reconhecer o tom emocional na voz indica que a doença compromete áreas do cérebro responsáveis pela interpretação de sinais sociais e emocionais”, explica. Embora o tamanho da amostra no estudo seja pequeno, para os autores da investigação, ela aponta a importância de uma abordagem de tratamento mais individualizada.
Os sintomas do Parkinson
O Parkinson é uma doença neurológica causada pela degeneração de células responsáveis pela produção de dopamina. Assim, como consequência, a queda na produção desse neurotransmissor impacta desde as funções emocionais até a coordenação motora, para a qual ela é essencial. “Além dos sinais motores iniciais, como a rigidez muscular e a lentidão dos movimentos, o quadro é associado também à manifestação de sintomas como depressão, alteração do olfato, mudanças no padrão de sono e constipação”, detalha o neurologista.
A doença afeta especialmente pessoas acima dos 60 anos. Ademais, é mais frequente em homens, em quem tem histórico na família ou quem teve uma exposição excessiva a produtos químicos como solventes e agrotóxicos.
As dificuldades de fala e escuta analisadas na pesquisa podem servir como indicadores de progressão da doença. “Assim como a maior dependência funcional, a piora na gravidade dos sintomas motores, a presença de demência, disautonomia e sintomas psicóticos, embora não ocorram em todos os casos”, observa o médico.
Mais qualidade de vida
Hoje, há tratamentos que melhoraram a qualidade de vida de quem convive com a doença. Um deles, por exemplo, é a Estimulação Cerebral Profunda, mais conhecida pela sigla em inglês DBS (Deep Brain Stimulation). O procedimento envolve a implantação de dois eletrodos em regiões específicas do cérebro, um de cada lado, que emite uma descarga elétrica diretamente nas células doentes. Dessa forma, tem grande eficácia no controle da lentidão e dos tremores.
“A cirurgia de estimulação cerebral profunda é um tratamento que está disponível no Sistema Único de Saúde. No entanto, tem suas limitações. É mais fácil encontrar as medicações de controle, que estão disponíveis em quase sua totalidade no rol da saúde pública”, observa Felicio. “Na rede privada, é possível fazer essa cirurgia com relativa facilidade.”
Outra opção é a terapia de infusão dopaminérgica, em que a aplicação ocorre por meio de uma infusão. A técnica é como uma saída para indivíduos que apresentam flutuações de sintomas, entre períodos chamados de on e off. Liberada nos Estados Unidos em 2024, ainda não foi aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
*Texto escrito por Bruno Bucis, da Agência Einstein
*Leia também: Três tratamentos que oferecem mais qualidade de vida para quem tem Parkinson
