Médicos reforçam segurança das canetas e explicam que pancreatite pode ser consequência da rápida perda de peso
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O recente alerta divulgado pela Anvisa sobre o risco de pancreatite associado ao uso indiscriminado dos medicamentos análogos de GLP-1, como Ozempic e Mounjaro, trouxe novamente o tema para o centro do debate público. Na semana passada, a Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Saúde (MHRA) do Reino Unido também emitiu um comunicado parecido. A divulgação dos alertas reacendeu dúvidas entre pacientes e gerou grande preocupação.
Especialistas, no entanto, defendem que o assunto precisa ser analisado com cuidado e contexto, evitando interpretações simplistas ou alarmistas. “A interpretação isolada de manchetes pode induzir à desinformação. É essencial contextualizar. A pancreatite, condição séria em que o pâncreas fica inflamado, não é causada pela medicação. Do ponto de vista científico, não há evidência de que os análogos de GLP-1 causem danos diretos ao pâncreas. O que a gente realmente sabe é que o paciente que sofre um emagrecimento muito rápido tem maior chance de ter litíase biliar, cálculo biliar, o que aumenta a chance de pancreatite”, explica a endocrinologista, Dra. Deborah Beranger.
Emagrecimento rápido
Assim como ocorre com os medicamentos análogos do GLP-1, o aumento do risco de pancreatite também pode observar-se em situações de perda de peso muito rápida, como jejum prolongado, cirurgias bariátricas ou uso de outras medicações que aceleram o emagrecimento. Ainda assim, trata-se de um evento raro.
“Evidências científicas mostram que a rápida redução de peso, independentemente do método utilizado para emagrecimento, está associada ao aumento da formação de cálculos biliares, principal causa de pancreatite aguda de origem biliar. Quando você tem uma perda de peso rápida, geralmente de 1 a 1,5 kg por semana durante um período prolongado, ocorre maior mobilização de colesterol dos tecidos para o fígado. Isso aumenta a secreção de colesterol na bile e favorece a supersaturação biliar, elevando o risco de formação de cálculos na vesícula. Esses cálculos podem migrar e se alojar na ampola hepatopancreática, causando obstrução e inflamação do pâncreas, resultando em pancreatite”, explica a médica nutróloga, Dra. Marcella Garcez.
Onde está o risco?
Dessa forma, o risco não está diretamente relacionado à medicação em si. Mas principalmente à perda de peso acelerada e a outros fatores que favorecem a formação de cálculos biliares. “Grande parte desse risco está muito mais ligado ao cenário que a pessoa se encontra, por fatores como obesidade, diabetes, aumento de triglicerídeo, perda de peso muito rápida e presença de cálculo biliar, colecistite ou uma inflamação aguda da vesícula, isso aumenta muito o risco de pancreatite. Não se pode atribuir que seja realmente da medicação”, diz a ginecologista, Dra. Patrícia Magier. “O álcool é um agressor ao pâncreas. Então os pacientes que fazem uso dos análogos devem diminuir consideravelmente o uso de álcool”, acrescenta a Dra. Deborah.
Dra. Patrícia lembra que o mais importante para evitar riscos é, antes de começar o tratamento com esses medicamentos, verificar se o paciente tem histórico de pancreatite e como está sua saúde metabólica. “Precisamos ver se ele tem cálculo de vesícula, se tem alteração metabólica, se consome álcool excessivamente e se faz uso de alguma medicação que possa aumentar o risco”, diz a ginecologista.
O oncologista Dr. Ramon Andrade de Mello acrescenta que histórico familiar de pancreatite não é contraindicação absoluta para o uso das canetas emagrecedoras. “Mas é um fator de risco que exige cautela e monitoramento médico. A avaliação do histórico de pancreatite do paciente e da família de primeiro grau, assim como da presença de cálculos biliares e triglicerídeos altos, é fundamental, pois são fatores que podem aumentar o risco de pancreatite aguda”, explica.
Acompanhamento médico é fundamental
Quando o paciente já está em tratamento, é fundamental ter um acompanhamento próximo das doses e sintomas. “É importante orientar o paciente sobre os possíveis sintomas, como dor abdominal em faixa, irradiando para as costas, vômito, náusea excessiva, mal-estar importante. Nesses casos, é fundamental relatar para o médico que está acompanhando o tratamento. E se for confirmado que realmente é um quadro de pancreatite, suspender a medicação até revertê-lo”, pontua a Dra. Patrícia Magier.
“Durante o tratamento, é recomendado também que o paciente reduza o consumo de gordura, já que, em pacientes com cálculo biliar, refeições muito gordurosas podem desencadear crises da vesícula. E o acompanhamento regular, com realização de ultrassonografia, também é fundamental”, acrescenta a Dra. Deborah Beranger. O acompanhamento profissional também é fundamental para definir metas seguras e individualizadas de perda de peso.
“Em programas estruturados de emagrecimento, considera-se adequada uma redução de até cerca de 5% do peso inicial por mês. Nos primeiros meses, a perda pode ser um pouco maior. Especialmente em indivíduos com obesidade, mas a tendência fisiológica é de desaceleração progressiva ao longo do tratamento. Esse ritmo é considerado mais seguro, com menor risco de complicações metabólicas e biliares, conforme orientações de sociedades científicas de obesidade e nutrição clínica”, diz a Dra. Marcela Garcez.
A Dra. Deborah reforça que, quando devidamente prescritas e usadas com acompanhamento médico, as canetas são ferramentas terapêuticas seguras e eficazes, com benefícios que superam riscos. “A ciência está mostrando, por meio dos estudos que acompanham pacientes que emagrecem com os medicamentos análogos ao GLP-1, que o acúmulo excessivo de gordura corporal está ligado a uma série de doenças, dentre elas o diabetes mellitus, dislipidemias, hipertensão arterial, problemas respiratórios, cardiovasculares, osteoarticulares, doenças inflamatórias, digestivas e degenerativas”, explica.
Sobre os especialistas
Dra. Patricia Magier (CRM-RJ 54925-6 | RQE 34538) é ginecologista formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com residência médica pelo IASERJ e pós-graduação pela Universidade do Rio de Janeiro – UNIRIO, e Título de Especialista em Ginecologia e Obstetrícia – TEGO; também possui especialização em Medicina Integrativa e Funcional. Criadora do Método Plena para cuidado da mulher de forma completa, profunda e individualizada.
Dra. Deborah Beranger (CRM 52753912) é endocrinologista, com pós-graduação em Endocrinologia e Metabologia pela Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro (SCMRJ) e pós-graduação em Terapia Intensiva na Faculdade Redentor/AMIB.
Dr. Ramon Andrade de Mello (CRMSP 181245 | RQE 67356) é médico oncologista do Centro Médico Paulista High Clinic Brazil (São Paulo). Vce-presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia. É membro do corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein, Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, e do Centro de Diagnóstico da Unimed, em Bauru, SP.
Dra. Marcella Garcez (CRMPR 12559 | RQE 16019) é médica nutróloga, Mestre em Ciências da Saúde pela Escola de Medicina da PUCPR, Diretora da Associação Brasileira de Nutrologia e Docente do Curso Nacional de Nutrologia da ABRAN. A médica é Membro da Câmara Técnica de Nutrologia do Conselho Federal de Medicina (CFM). Coordenadora da Liga Acadêmica de Nutrologia do Paraná e Pesquisadora em Suplementos Alimentares no Serviço de Nutrologia do Hospital do Servidor Público de São Paulo.
*Fonte: Holding Comunicação
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