Carta de Vorcaro liga Banco Master a negociações com o BC e convênio com o INSS
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A carta foi escrita em 2019 pelo banqueiro Daniel Vorcaro e endereçada a Paulo Sérgio Neves, que à época ocupava a diretoria de Fiscalização do Banco Central. No texto, Vorcaro contesta exigências feitas pelo BC para que a instituição pudesse operar consignado para associações de servidores e aposentados.
O contexto inclui a inabilitação, em 2018, dos administradores e controladores do banco. A medida partiu do presidente do Comitê de Decisão de Processo Administrativo Sancionador e de Termo de Compromisso do Banco Central, Sidnei Corrêa Marques. Na carta, Vorcaro reclama da avaliação técnica de que o modelo de consignado pretendido apresentava risco elevado, o que levaria à necessidade de maior aporte de capital.
Na sequência, o banqueiro descreve que o banco forneceria recursos e a associação entraria com sua base de filiados, cobrando uma taxa pela montagem e pelo funding. Ele escreve: " Criamos uma estrutura em que o banco fornece o funding para a associação e associado final, usando seu codigo de desconto em folha. Deste modo a entidade tem potencial de atingir mais associados e de concentrar em prover outros beneficios aos associados que nao sejam os financeiros! E por esse trabalho cobramos um fee [uma taxa] de estruturação e funding, que foi inteiramente pago pela entidade! Com caixa que ela possuia! Nao ha qualquer motivos para ajustes nesse caso, nao podemos ser penalizados por ter feito um bom negocio [sic] "
Vorcaro também apresenta números do que chama de efeito esperado para duas entidades, afirmando que tinham 60 mil associados reunidos em 20 anos, com cobrança de 84 reais por pessoa e arrecadação anual de 60mm, e projeta aumento para 120mm por ano com a expansão do quadro. O trecho diz: " Do ponto de vista do cliente (entidade) foi um negócio excelente também. As duas entidades possuíam 60 mil associados, amealhados em 20 anos de existencia, que pagam atualmente 84 reais cada. Isso gera para as duas 60mm [milhões] ano de arrecadação. Com o funding do banco, espera-se dobrar numero de associados e essas entidades passam a arrecadar 120mm ano! Foi excelente negócio [sic]".
Segundo a apuração citada no material, a reabilitação do Banco Máxima/Master ocorreu após Paulo Sérgio Neves assumir a diretoria de Fiscalização, com registro no Diário Oficial em outubro de 2019, durante o governo de Jair Bolsonaro, quando o Banco Central era chefiado por Roberto Campos Neto. Já em 2020, sob o nome Master, a instituição firmou convênio com o INSS para operar consignado, com validade registrada até setembro de 2025, mas as linhas foram canceladas após a implosão do banco em meio à apuração de um esquema que atingiu aposentados e pensionistas por meio de descontos em folha não autorizados.
O material menciona que reportagens apontaram, entre as irregularidades, inscrição duplicada de beneficiários e um sistema que dificultava a verificação de assinaturas. No desdobramento mais recente citado, Daniel Vorcaro está preso, e Paulo Sérgio Neves está proibido de entrar no Banco Central e usa tornozeleira eletrônica, sob acusação de receber propina para atuar como "empregado e consultor" de Vorcaro. A defesa de Vorcaro não havia respondido, e a defesa de Paulo Sérgio Neves não foi localizada.
