Microplásticos: estamos sendo feitos de plástico?
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Pense em quantas coisas de plástico você tocou hoje. A escova de dentes pela manhã, a tampa da garrafa de água, a embalagem do almoço, o teclado do computador, o seu celular… O plástico está tão presente em nossas vidas que quase nem percebemos mais. Nos últimos anos, porém, os cientistas começaram a fazer uma descoberta surpreendente: pequenas partículas desse material não estão apenas ao nosso redor, mas também já foram encontradas dentro do corpo humano.
Essas partículas são chamadas de microplásticos e surgem quando objetos plásticos maiores se desgastam com o tempo e se fragmentam em pedaços cada vez menores, muitas vezes invisíveis a olho nu.
Nos últimos anos, os cientistas passaram a encontrá-las em lugares cada vez mais inesperados do organismo. Primeiro no sangue, depois na placenta e mais recentemente nas placas de gordura das artérias. Agora, pesquisas sugerem que essas partículas podem chegar até mesmo ao cérebro, um dos órgãos mais protegidos do corpo.
Essas descobertas abriram uma nova frente de investigação científica. A pergunta que começa a mobilizar pesquisadores em todo o mundo é simples: o que acontece quando partículas de plástico passam a circular dentro do nosso corpo?
Parte da resposta está no próprio ambiente em que vivemos. A produção global de plástico ultrapassa hoje 400 milhões de toneladas por ano. Sacolas, embalagens, roupas sintéticas, utensílios domésticos e até pneus liberam pequenas partículas à medida que se desgastam. Esses fragmentos acabam no solo, nos rios, nos oceanos e também no ar que respiramos. Com o tempo, entram na cadeia alimentar e passam a fazer parte do ambiente em que vivemos.
Um estudo publicado em 2022 na revista Environment International detectou microplásticos diretamente no sangue humano, mostrando que essas partículas podem circular pelo organismo (Leslie et al., 2022).
Outra descoberta que chamou muita atenção ocorreu em 2020, quando pesquisadores encontraram microplásticos em placentas humanas, sugerindo que a exposição pode começar ainda durante a gestação (Ragusa et al., 2020).
Em 2024, um estudo publicado no New England Journal of Medicine analisou placas de gordura retiradas das artérias de pacientes com aterosclerose e encontrou microplásticos nesses tecidos. Os pesquisadores observaram que pacientes que apresentavam essas partículas tiveram maior risco de eventos cardiovasculares, como infarto ou acidente vascular cerebral (Marfella et al., 2024).
Pesquisas também começaram a investigar se essas partículas poderiam alcançar outros órgãos. Um estudo publicado em 2023 na revista Environmental Science & Technology identificou microplásticos em tecidos cardíacos coletados durante cirurgias (Yang et al., 2023).
Mas como essas partículas chegam ao corpo humano? Os cientistas apontam três caminhos principais: alimentação, respiração e contato com materiais presentes no cotidiano.
A ingestão parece ser uma das principais vias de exposição. Microplásticos já foram detectados em água potável, frutos do mar, sal marinho e alimentos processados. Em alguns casos, a própria embalagem plástica pode liberar partículas microscópicas, especialmente quando entra em contato com calor.
A respiração é outra possível porta de entrada. Tecidos sintéticos, como poliéster e nylon, liberam microfibras que ficam suspensas no ar e podem ser inaladas. Essas partículas também aparecem na poeira doméstica e na poluição urbana.
A boa notícia é que grande parte das partículas ingeridas parece ser eliminada naturalmente pelo organismo. Estudos indicam que muitos microplásticos atravessam o sistema digestivo e são excretados nas fezes.
No entanto, partículas ainda menores, chamadas nanoplásticos, podem atravessar barreiras biológicas e alcançar a corrente sanguínea. Uma vez na circulação, elas podem chegar a diferentes órgãos do corpo.
Pesquisas em laboratório indicam que células humanas expostas a microplásticos podem apresentar sinais de inflamação e estresse oxidativo, sugerindo que o organismo ainda reconhece essas partículas como elementos estranhos.
Outra dúvida frequente é se existe alguma forma de eliminar microplásticos do organismo. Até o momento, não existe medicamento ou suplemento capaz de remover essas partículas do corpo humano.
Por enquanto, a estratégia mais realista é reduzir a exposição sempre que possível. Evitar aquecer alimentos em recipientes plásticos, preferir recipientes de vidro ou aço inoxidável e reduzir o uso de garrafas plásticas descartáveis são algumas medidas simples que podem ajudar.
Durante muito tempo pensamos na poluição como algo que estava apenas fora de nós, nos rios, nos mares e no ar das grandes cidades. As descobertas sobre microplásticos sugerem algo diferente: a poluição pode não estar apenas ao nosso redor, mas também pode estar dentro de nós.
Referências bibliográficas
- Leslie, H. A. et al. 2022. Discovery and quantification of plastic particle pollution in human blood. Environment International. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0160412022001258
- Ragusa, A. et al. 2020. Plasticenta: First evidence of microplastics in human placenta. Environment International. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0160412020322297
- Marfella, R. et al. 2024. Microplastics and Nanoplastics in Atherosclerotic Plaques. New England Journal of Medicine. https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2309822
- Yang, Y. et al. 2023. Detection of microplastics in human cardiac tissues. Environmental Science & Technology. https://pubs.acs.org/doi/10.1021/acs.est.3c03924
- PlasticsEurope. 2023. Plastics – The Facts 2023. https://plasticseurope.org/knowledge-hub/plastics-the-facts-2023/
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