Queixo humano pode ser um 'acidente' evolutivo, diz estudo
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Uma informação curiosa é que o queixo, essa pequena projeção óssea no rosto, é uma das marcas mais exclusivas do ser humano. Nem chimpanzés, nossos parentes vivos mais próximos, nem mesmo espécies humanas extintas, como os neandertais, apresentavam essa característica tão evidente. Mas afinal, por que ele existe?
O queixo é um “acidente” da evolução?
Um estudo liderado por pesquisadores da Universidade de Buffalo, nos Estados Unidos, e publicado na revista científica PLOS One em 29 de janeiro, sugere que o queixo pode não ter surgido por uma função específica. De acordo com os cientistas, ele seria um subproduto do processo evolutivo – algo que apareceu como consequência indireta de outras transformações no crânio humano, e não porque trouxe alguma vantagem clara para a sobrevivência.
Segundo a pesquisadora Noreen von Cramon-Taubadel, o queixo “evoluiu em grande parte por acidente e não por uma seleção direta, mas como um subproduto evolutivo resultante da seleção direta em outras partes do crânio”. Ou seja: ele pode ser mais um efeito colateral do que uma adaptação planejada pela natureza.
Um detalhe decorativo no rosto
Em termos simples, os autores sugerem que o queixo funciona quase como um “enfeite” anatômico. Ele não teria surgido para reforçar a mandíbula, facilitar a fala ou melhorar a mastigação – hipóteses que já surgiram ao longo do tempo. “Só porque temos uma característica única, como o queixo, não significa que ela foi moldada pela seleção natural para aumentar a capacidade de sobrevivência”, observou von Cramon-Taubadel.
Como os cientistas chegaram a essa conclusão?
Para investigar a origem do queixo, os pesquisadores analisaram dezenas de características do crânio e da mandíbula em diferentes grupos de hominídeos. Eles testaram três hipóteses principais: se o queixo surgiu ao acaso, por deriva genética; se ele foi moldado diretamente pela seleção natural; ou se apareceu como um “produto residual” de outras adaptações.
A equipe decidiu não partir do pressuposto de que tudo no corpo humano tem uma função adaptativa. Em vez disso, testou a chamada hipótese nula da neutralidade, comparando traços cranianos de humanos e outros primatas.
O resultado mostrou que algumas partes do crânio humano passaram, sim, por seleção direta. Mas o queixo, especificamente, se encaixava melhor na definição de spandrel: ele teria se tornado evidente por causa de transformações em outras regiões da face.
Mudanças no rosto podem ter “criado” o queixo
O estudo aponta que grandes mudanças evolutivas no crânio humano – como o aumento do cérebro, a retração do rosto inferior e a redução da mandíbula ao longo do tempo – podem ter deixado o queixo mais visível. Com dentes menores e uma face menos robusta, a estrutura óssea frontal acabou ganhando destaque, mesmo sem ter sido “selecionada” por uma função específica.
A principal mensagem da pesquisa é provocadora: nem toda característica do corpo humano surgiu porque foi útil. Algumas aparecem como consequência inevitável de outras mudanças evolutivas maiores. No caso do queixo, ele pode ser apenas uma marca do nosso processo de transformação como espécie. Otraço que virou símbolo do Homo sapiens, mesmo sem uma razão prática clara. No fim, talvez o queixo seja apenas isso: um detalhe curioso, um “acidente” evolutivo… e uma assinatura discreta da nossa humanidade.
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