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Boite Amoredrinks e um pouco de fobismo
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Boite Amoredrinks e um pouco de fobismo

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27/02/2026 14h43
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Hoje a Agência Entre Aspas faz 18 anos e, em sua homenagem, vamos sem revisão, sem figuras e com um dos grandes momentos desta indústria vital.

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Lendo essa belíssima resenha sobre o livro do Mamãe Falei, lembrei de quando, certa feita, a aniversariante do dia foi designada a “escrever”, como ghost writer, um livro de aforismos de um senhor endinheirado aí. Para facilitar o entendimento, vamos chamá-lo de Mosé Mngelo.

O escrever foi em parênteses porque ele já o havia redigido. Em papel, em umas folhas soltas. Em um português tão ruim que só perdia para a própria caligrafia, o que chamamos, no popular, de garrancho gato com cabeça de leão.

E toda essa situação precária era ainda melhor do que os aforismos do sr. Mngelo. Não lembro de quase nenhum, embora o livro esteja em algum lugar perto de mim e eu poderia, facilmente, reler.

Mas tenho medo de ir procurar, abrir e ficar cego novamente. Quando o escrevemos, peguei glaucoma grau 8; a estagiária que ajudou a transcrever largou o curso de jornalismo na sequência e virou cartomante.

Havia coisas como “eu amo minha mulher”, “nunca beba se estiver fobista” e “na vida é necessário consumir cinco tipos de carne: frango, porco, peixe e carne mesmo”. Era daí para baixo. Ou para cima, sei lá.

Lembro também que ele rabiscou como queria a capa, como desejava a diagramação e tudo mais. Foi um dos trabalhos mais desafiadores que já tive.

Mesmo porque, na fase final de produção, ele me chamou para conversar pessoalmente no Maksoud Plaza – tinha sido expulso de casa pela mulher. Em sua suite, me atendeu seminu – usando somente um hobby seda. Foi uma cena à lá Nuno Leal Maia nos anos 80, como se eu fosse a Matilde Mastrangi depois de rodar com pneu murcho por algumas décadas.

Tentou fazer amor comigo por uns 4 minutos seguidos.

Até que desistiu das investidas, disse que era diabético e que precisava comer. Não eu, ressaltou. Me chamou para almoçar lá embaixo e foi quando vi a brecha para correr com a papelada na mão.

Mesmo assim, o livro saiu e saiu uma bela porcaria. E, mesmo mesmo assim, me parece ter mais valor do que o do Mamãe Falei, já que o sr Mosé Mngelo não tinha qualquer aspiração a escritor e só fez tudo isso para, aparentemente, me comer.

Se deu certo o plano? Bom, não gostaria de falar sobre isso.

Daí que cada um é cada e compreendo gostos peculiares. Mas o Mosé Mngelo não precisava fazer tudo isso para se aproveitar do corpo alheio (tal qual o Mamãe Falei indo à Ucrânia). Bastava dar um pulo na boite AMOREDRINKS, que fica em algum lugar entre São Bernardo do Campo e Caldas Novas e tentar a sorte por lá.

Claramente, o parágrafo anterior não faz muito sentido Só foi devidamente encaixado ali por conta do nome AMOREDRINKS. Passei por essa boite na estrada por esses dias e fiquei maravilhado com o nome – didático, autoreferente, poético e, até, fobista.

O cidadão que criou deveria largar a cafetinagem e trabalhar com marketing (ou equilibrar os dois empregos). Ninguém jamais vai criar um nome de puteiro mais bonito que isso. AMOREDRINKS. Em termos de acerto em relação a nomenclatura, creio que empata com a Churrascaria Per Tutti (por que não abrir uma churrascaria com nome de pizzaria?) ou da maravilhosa Batata Frita, o Ladrão de Bicicleta, de Tim Maia.

Por falar em estrada (AMOREDRINKS, ai ai), depois de horas e horas até chegar à minha mãe, fui recebido com entusiasmo e com alguns comentários a respeito do que ela via no celular. “Meu Deus, a Ivete Sangalo perdeu uma perna”, “eita, o menino foi tocar no arco-íris e a mão dele caiu.”

Parece um mundo alternativo, uma história da carochinha. Quase como um Era uma vez.

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Era Uma Vez...

- Vamos brincar de “Era uma vez”?

- Cuma?

- A internet caiu, não tenho como trabalhar. Pensei em inventar uma brincadeira, enquanto ela não volta.

- E como funciona isso?

- É assim: eu começo uma história, você continua. Daí, você pára em algum ponto. Eu continuo e assim vamos, até a gente cansar ou a internet voltar para podermos voltar a trabalhar.

- Hummmm. Tá bom. Começa.

- Era uma vez uma garota chamada Adriana. Adriana não tinha o dedo mindinho do pé esquerdo. Um dia, ela saiu de casa e, distraidamente, topou com o pé em uma pedra.

- ...

- Continua, pô.

- Ah, tá. Aí veio a terceira guerra mundial. Pegou todo mundo de surpresa. O mundo explodiu e todo mundo morreu. Não sobrou nada, nem uma poeirinha cósmica para iniciar outro mundo.

- Se você não queria brincar, era só avisar. Não precisava criar uma história de catástrofe só para se livrar da brincadeira.

- Ué, mas você pode continuar a história.

- Como, se não sobrou nadica de nada?

- Só ter imaginação.

- Então continue.

- Bom, daí o mundo acabou e não sobrou nada. Mas Deus não gostou do que viu. Com uns dois gestos e sua varinha mágica de condão, recriou o mundo tal qual o conhecemos hoje. Com exceção do Jô Soares, que ele considerou um erro e decidiu não recriá-lo. Esse mundo, inclusive, tinha a Adriana, que não tinha o dedo mindinho do pé esquerdo.

- Aí certo dia, Adriana saiu de casa, rumo à escola, e deu com o pé esquerdo em uma pedra. Ficou com ele todo dolorido. Muito mesmo. Seria uma dor mortal, se doesse um pouco mais. Mas como ela não tinha o dedo mindinho, não morreu de dor. Se tivesse, já estaria morta. Nunca um defeito físico foi tão bom.

- Aí Deus teve um infarto fulminante e foi pro vinagre. Veio a terceira guerra mundial e não sobrou nada. E, dessa vez, nem tinha Deus para recriar tudo. Acabou o mundo, o universo e tudo mais. Não sobrou nada, nada, nada.

- Cacete, como é que eu vou continuar isso agora?

- Imaginação, meu caro.

- Então continua.

- Aí Deus misteriosamente ressuscitou e recriou novamente o mundo. Igual como o conhecemos hoje. A diferença é que, além de não ter criado Jô Soares, aproveitou para emudecer o Diogo Mainardi e deu um dedo mindinho à Adriana, que saiu de casa, topou em uma pedra e morreu de dor.

- Ah, agora quem não quer mais brincar sou eu. Você matou a pobre Adriana.

- Eu? Eu? Eu nada. Deus, meu chapa.

- Mas mesmo assim, eu queria contar a história da Adriana sem dedinho.

- Você pode ressuscitá-la.

- Ah, não. Não quero contar a história de uma morta-viva. Muito bizarro para mim.

- Mas nessa história até Deus é morto-vivo, por que a Adriana não seria?

- Porque ela era pura e inocente. Não via maldade em nada. Era vegetariana e tudo mais. Não faz sentido ela ser tudo isso e mais morta-viva.

- Mas ela pode ser uma morta-viva limpinha, que não come miolos e nem manca e se arrasta e grunhe. Ela pode ser normal, com a dieferença que já foi para o além vida e voltou.

- Quando a pessoa vai dessa pra uma melhor e volta, volta toda zuada. Não é possível ir e voltar melhor do que era quando viva.

- Como não? Mire no exemplo de Deus da nossa história. Ele morreu, voltou e quando reconstruiu o mundo, emudeceu o Diogo Mainardi. Isso é ou não uma melhora no caráter do todo-poderoso-morto-vivo?

- É. Mas ele não é uma pessoa, e sim uma divindade. Pessoas não voltam melhores. Divindades voltam.

- Então cria uma condição especial para a Adriana. Vamos supor que ela fosse mãe-de-santo. Mãe-de-santo é divindade?

- Não sei dizer.

- Supondo que sim. Então ela morreria e voltaria melhor. Pronto, pode continuar a história.

- A Adriana vai ser uma mãe-de-santo morta-viva vegetariana, com um dedinho colocado às pressas no pé, que vai topar com uma pedra no meio da rua?

- É.

- É o fim do mundo!

- De novo? Nosso mundo já acabou três vezes. Assim não dá.

- Não, não. Eu estava reclamando da condição da Adriana e não terminando com o mundo. Se bem que, como a internet voltou, temos que acabar a história. Como termina?

- Que tal acabarmos com o mundo, com Deus, com tudo o que existe?

- Pode ser.

- Tá. Então a Adriana andava pela rua quando aconteceu uma grande explosão intergalática, que dizimou a vida de todos os seres do mundo. Até mesmo Deus, novamente, foi para o quiabo. Acabou-se o mundo e somente sobrou...

- Um violinista surdo, seu violino e uma pedra, na qual ele sentava. Sobre ela, tocou pela eternidade uma ridícula e irritante canção de ninar. Mas como ele era surdo, não se importou. Como não havia ninguém para ouvir, não houve reclamações. Fim.

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Semana que vem, tem mais. Até lá.

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