Fome ou compulsão alimentar? Especialistas explicam as diferenças
Anamaria

Depois das festas de fim de ano, muitas mulheres voltam a olhar com mais atenção para o prato e para o próprio corpo. Nesse contexto, surge uma dúvida bastante comum: afinal, é fome ou compulsão alimentar? Em um país onde a obesidade e o excesso de peso avançam de forma preocupante, aprender a reconhecer os sinais do corpo se torna, acima de tudo, um passo essencial para escolhas mais equilibradas e duradouras.
Dados do Atlas Mundial da Obesidade 2025 mostram que 31% dos adultos brasileiros vivem com obesidade e 68% apresentam excesso de peso. Por isso, mais do que pensar apenas em emagrecimento, especialistas reforçam a importância de compreender a relação com a comida, distinguindo a fome real de comportamentos impulsivos ou de transtornos alimentares.
Fome ou compulsão alimentar?
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a fome fisiológica funciona como um aviso natural do organismo. Ela sinaliza a necessidade de energia e nutrientes e costuma vir acompanhada de sintomas como fraqueza, desconforto abdominal e dificuldade de concentração. Nesse caso, comer atende a uma demanda biológica clara.
No entanto, nem toda vontade de comer nasce dessa necessidade. Segundo a nutricionista Ana Beatriz Guiesser, do Instituto Sallet, existe também a chamada fome emocional. “Em situações de estresse, ansiedade ou tristeza, muitas pessoas buscam alimentos calóricos como doces e frituras, pois eles ativam mecanismos de recompensa no cérebro”, explica. Assim, o alimento assume um papel de conforto, e não de nutrição.
Além disso, há a fome social, fortemente influenciada pelo ambiente. Em encontros familiares, festas ou reuniões, comer pode acontecer quase no automático. Portanto, observar o contexto e o próprio comportamento ajuda a diferenciar se estamos diante de fome ou compulsão alimentar, ou apenas de um hábito construído ao longo do tempo
Fome emocional e fome social
Identificar gatilhos emocionais e sociais faz toda a diferença para virar a chave. Quando a escolha alimentar acontece sem atenção, o risco de exageros aumenta. Por isso, especialistas orientam priorizar alimentos naturais ou minimamente processados, que promovem maior saciedade e ajudam a reduzir episódios de consumo excessivo.
O Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, reforça esse olhar mais amplo. Ele destaca que a alimentação envolve não apenas nutrientes, mas também a forma de preparo, o modo de comer, as combinações no prato e os aspectos culturais. Ou seja, comer bem também passa por respeitar o tempo da refeição e perceber os sinais do corpo.
Como diferenciar os comportamentos
Para entender a diferença entre gula e fome ou compulsão alimentar, vale observar frequência e intensidade. Episódios pontuais, como repetir a sobremesa mesmo estando satisfeita, caracterizam a gula. Trata-se de um comportamento impulsivo, ligado ao prazer, sem definição clínica.
Já a compulsão alimentar apresenta sinais mais claros: ingestão de grandes quantidades de comida em pouco tempo, sensação de perda de controle e consequências físicas e emocionais, como culpa e desconforto. Nesses casos, o acompanhamento especializado se torna fundamental.
O médico José Afonso Sallet, especialista em obesidade e doenças metabólicas, alerta que cerca de 30% dos pacientes com obesidade grave convivem com o transtorno de compulsão alimentar. Segundo ele, psicólogos e psiquiatras desempenham papel central no diagnóstico e no tratamento, inclusive com apoio medicamentoso quando necessário.
Além disso, o trabalho de uma equipe multiprofissional aumenta as chances de resultados duradouros. Médicos, nutricionistas, psicólogos, endocrinologistas e profissionais de atividade física atuam juntos não apenas para a perda de peso, mas também para a manutenção da saúde a longo prazo.
Resumo: Entender se a vontade de comer vem da necessidade física, da emoção ou do hábito ajuda a diferenciar fome ou compulsão alimentar. Enquanto a fome fisiológica pede nutrientes, a compulsão exige cuidado especializado. Reconhecer esses sinais é o primeiro passo para uma relação mais saudável com a comida.
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