Imunologia da reprodução: como o sistema imunológico influencia a gestação
Anamaria

Apesar de ainda pouco conhecida no Brasil, a imunologia da reprodução tem ganhado destaque na medicina reprodutiva internacional por seu papel fundamental na fertilidade, na implantação embrionária e na manutenção da gestação. A especialidade investiga como o sistema imunológico da mulher interage com o embrião que, biologicamente, carrega material genético diferente do organismo materno.
De acordo com a Sociedade Americana de Imunologia da Reprodução, a área atua diretamente no processo de reprodução assistida e em casos de perdas gestacionais recorrentes, contribuindo para aumentar as chances de gravidez evolutiva e nascimento de bebês saudáveis.

Uma área ainda pouco reconhecida no Brasil
Em entrevista, o médico obstetra Dr. Manoel Sarno, um dos poucos brasileiros com titulação internacional na área, explica que a imunologia da reprodução ainda não possui reconhecimento formal no Brasil como área de atuação médica.
“Para obter minha titulação, precisei buscar formação nos Estados Unidos, onde existe a Sociedade Americana de Imunologia da Reprodução e o título de Fellowship em Imunologia da Reprodução”, destaca o especialista. Atualmente, apenas três pesquisadores brasileiros possuem essa certificação internacional.
Segundo o médico, enquanto a imunologia já é amplamente estudada em áreas como cardiologia, oncologia e nefrologia, ainda enfrenta resistência quando aplicada à reprodução humana, apesar do crescente volume de evidências científicas.
O papel do sistema imunológico na fertilidade
Durante a gestação, o organismo da mulher precisa desenvolver um equilíbrio delicado: proteger-se contra infecções sem rejeitar o embrião, que é parcialmente “estranho” ao seu sistema imunológico. Quando esse equilíbrio não acontece, podem surgir dificuldades como:
• Falhas repetidas de implantação embrionária;
• Abortamentos de repetição;
• Interrupção da gestação sem causa genética aparente.
“O embrião até se implanta, mas não consegue evoluir. Em muitos casos, o problema não está no embrião, mas na resposta imunológica materna”, explica o Dr. Sarno.
Imunoterapia já é usada muitas vezes sem critério
Um dado que chama atenção é que, segundo o especialista, cerca de 80% dos médicos que atuam com reprodução humana utilizam algum tipo de imunoterapia, mesmo sem um protocolo formal ou diagnóstico imunológico preciso.
“Corticóides, heparina e aspirina, por exemplo, têm ação imunológica. Muitos profissionais acabam usando essas medicações de forma empírica, sem uma investigação adequada”, alerta.
A imunologia da reprodução, no entanto, trabalha com imunomodulações direcionadas, indicadas somente após exames específicos e avaliação individualizada.
Quais tratamentos imunológicos podem ser indicados?
Entre as estratégias utilizadas na imunologia da reprodução estão:
• Fatores de crescimento celular (G-CSF), que podem auxiliar em casos de falha de implantação;
• Emulsões lipídicas, ricas em ácidos graxos benéficos, usadas para modular a resposta imunológica;
• Imunoglobulina humana endovenosa, amplamente utilizada na Europa e nos Estados Unidos;
• Imunoterapia com linfócitos paternos, realizada no Brasil apenas em protocolos de pesquisa autorizados pela Anvisa.
O Dr. Manoel Sarno é atualmente o único pesquisador no país autorizado a realizar a imunoterapia com linfócitos paternos, dentro de um protocolo de pesquisa aprovado, sem custo direto para os pacientes.
Quando a investigação imunológica é indicada?
A avaliação em imunologia da reprodução não é indicada para todos os casais. Segundo o especialista, os principais critérios incluem:
• Duas ou mais perdas gestacionais;
• Uma perda gestacional tardia, sem causa genética identificada;
• Duas ou mais falhas de transferência embrionária com embriões geneticamente testados;
• Histórico de óbito fetal sem explicação aparente.
“A investigação deve ser criteriosa. Cada sistema imunológico é único, e não existe protocolo padrão que sirva para todos”, reforça.
Evidências científicas apontam aumento das taxas de sucesso
Os dados apresentados pelo especialista reforçam a eficácia da abordagem imunológica quando bem indicada. Em estudo publicado em 2019, o grupo de pesquisa coordenado pelo Dr. Sarno observou um aumento da taxa de nascidos vivos de 33% para 60% em casais com histórico de perdas gestacionais.
Em casos específicos de alterações imunológicas do tipo aloimune, a taxa de sucesso chegou a 78% com o uso de imunoterapia adequada. Estudos internacionais recentes também demonstram redução significativa nas taxas de abortamento e aumento expressivo nas chances de gravidez evolutiva.
Um caminho promissor para casais com histórico de perdas
Além dos impactos físicos, o especialista chama atenção para o desgaste emocional enfrentado por casais que vivenciam abortamentos recorrentes ou falhas repetidas de fertilização.
“Cada perda representa um luto. A investigação imunológica pode evitar anos de sofrimento emocional e tentativas frustradas”, afirma.
Dr. Manoel Sarno é mestre e doutor pela UNICAMP, com Pós-Doutorado no King’s College Hospital/Fetal Medicine Foundation, em Londres. Professor Titular de Ginecologia e Obstetrícia da UFBA, destaca-se pela atuação acadêmica, científica e clínica em saúde materno-fetal. Reconhecido nacionalmente, é referência na formação de profissionais e no cuidado especializado.
Fonte: Dr. Manoel Sarno | @prof.dr.manoelsarno
