Existe filho ou filha preferida?
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A ideia de que pais amam todos os filhos de forma absolutamente igual ainda é um ideal amplamente difundido. No entanto, a realidade familiar pode ser mais complexa. Segundo a doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e psicanalista, Blenda Oliveira, o favoritismo parental, explícito ou não, é mais comum do que se imagina e pode gerar consequências profundas nas dinâmicas familiares.
De acordo com a especialista, o favoritismo nem sempre é assumido pelos pais. “Muitas vezes ele não é explícito. Existe um favoritismo que é negado, mas está presente. A própria mãe ou o pai não reconhecem essa diferença no tratamento”, explica. Quando questionados, é comum que os responsáveis afirmem que “são todos iguais”, embora atitudes e pequenas escolhas revelem o contrário.
Blenda relata o caso de uma família com três filhos, duas meninas e um menino mais novo. Embora os pais fossem considerados presentes e afetuosos, havia uma preferência perceptível pelo caçula. Ele era frequentemente descrito como “mais inteligente” e “mais promissor”, inclusive pelas próprias irmãs. “O olhar da mãe e do pai para ele era diferente. Havia um lugar de privilégio no amor”, afirma a psicanalista. Segundo ela, esse tipo de diferenciação, ainda que sutil, é sentido pelos filhos.
Outro exemplo citado pela especialista envolve uma mãe que desejava que o segundo filho fosse menina, mas teve outro menino. A frustração inicial dificultou a construção do vínculo. “Ela demorou para aceitar esse filho e favorecia claramente o primogênito”, relata. Situações cotidianas, como atender mais prontamente um chamado de um filho em detrimento do outro, evidenciavam a preferência e impactavam toda a dinâmica familiar.
A psicanalista ressalta que é importante diferenciar favoritismo de afinidade. “Quando se tem mais de um filho, é natural existir maior afinidade com um ou outro em determinados momentos da vida. Isso pode variar conforme as fases e não significa necessariamente preferir um filho”, pontua. O favoritismo, por outro lado, é marcado por uma diferença enfática e reiterada no tratamento, que se torna perceptível e, muitas vezes, dolorosa.
Em famílias muito exigentes, o favoritismo também pode aparecer por meio da desvalorização de características individuais. Blenda cita o caso de um jovem com perfil artístico em meio a irmãos reconhecidos pelo desempenho intelectual. “Quando ele falava sobre seus interesses, era alvo de risadas ou tinha seus projetos classificados como inutilidade. Havia um rechaço claro”, explica. Esse tipo de postura pode comprometer a autoestima e a construção da identidade.
O tema também vem sendo investigado por pesquisadores internacionais. Um estudo publicado em 2025 ajuda a compreender quais crianças têm maior probabilidade de receber tratamento preferencial dentro da família. Alexander Jensen, professor associado da Brigham Young University e um dos principais autores da pesquisa, afirmou no comunicado de divulgação que “o estudo nos ajuda a entender quais crianças têm mais probabilidade de receber favoritismo, que pode ser positivo e negativo”.
Publicado na revista científica, Psychological Bulletin, o trabalho reuniu dados de 19.469 participantes por meio de uma meta-análise de 30 artigos acadêmicos. Os pesquisadores examinaram de que forma fatores como ordem de nascimento, gênero, temperamento e traços de personalidade — entre eles extroversão, afabilidade, abertura, conscienciosidade e neuroticismo — se associam ao favoritismo parental. Os resultados indicam que a percepção de tratamento desigual entre irmãos está relacionada a rivalidades mais intensas, dificuldades emocionais e efeitos que podem se prolongar até a vida adulta.
Para Blenda Oliveira, reconhecer a possibilidade de favoritismo é o primeiro passo para transformar a dinâmica familiar. “Os filhos sentem quando há diferença. Negar isso não elimina o efeito. Ao contrário, impede que a família possa elaborar essas experiências”, conclui. O debate, segundo ela, é fundamental para promover relações mais conscientes e emocionalmente saudáveis dentro de casa.
Sobre Blenda Oliveira
Ela é doutora em psicologia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) e psicanalista pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). É autora do livro Fazendo as pazes com a ansiedade, publicado pela Editora Nacional, que foi indicado ao Prêmio Jabuti em 2023. A especialista também palestra sobre saúde mental e autoconhecimento e vem se dedicando ao tema do envelhecimento e solidão.
