Por que as dores duram mais tempo em mulheres do que em homens? Ciência responde!
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Sentir dor após uma lesão é esperado: uma entorse, uma cirurgia ou um acidente costumam provocar desconforto que melhora conforme o corpo se recupera. Mas, para muitas mulheres, essas dores não vão embora com a mesma rapidez – e, em alguns casos, se transformam em dores crônicas.
Durante décadas, essa diferença foi atribuída a fatores emocionais ou psicológicos. Não raro, mulheres ouviram que estavam “exagerando” ou que era “coisa da cabeça”. Hoje, a ciência começa a desmontar esse senso comum e mostrar que há, sim, mecanismos biológicos por trás dessa realidade.
O que é dor crônica – e por que ela merece atenção
A dor crônica é aquela que persiste por mais de três meses. Ela pode ter origem inflamatória, neuropática (relacionada a nervos) ou multifatorial. Quando ignorada, compromete sono, trabalho, relações e saúde mental.
Segundo dados da Sociedade Brasileira para Estudo da Dor (SBED), as mulheres representam a maioria dos casos de dores crônicas. Entre as condições mais frequentes estão: dor lombar; dor em ombros e joelhos; dor orofacial; enxaqueca (migrânea); fibromialgia.
Na fibromialgia, por exemplo, a proporção pode chegar a quatro mulheres para cada homem diagnosticado. Além disso, existem dores específicas do sexo feminino, como dismenorreia (dor menstrual), dor pélvica crônica, dor vulvar, dor lombar na gestação e dor do parto. Não se trata de exceção, é um padrão consistente.
O sistema imunológico pode ser a chave
Uma molécula chamada interleucina-10 (IL-10) tem papel central nesse processo. Ela reduz a inflamação e também atua diretamente nos neurônios responsáveis por transmitir a dor, ajudando a silenciar esses sinais. Essa substância é produzida principalmente por células do sistema imune chamadas monócitos.
O que os pesquisadores observaram? Nos homens, esses monócitos tendem a produzir mais IL-10 após uma lesão, o que favorece uma resolução mais rápida da dor. Nas mulheres, essa resposta é menos intensa – o que pode contribuir para que a dor persista por mais tempo.
Hormônios entram na equação
Os hormônios também influenciam esse processo. Estudos indicam que a testosterona estimula a produção de IL-10 pelos monócitos. Como os homens apresentam níveis mais elevados desse hormônio, isso pode facilitar o “desligamento” natural da dor.
Já no caso das mulheres, as flutuações hormonais – especialmente relacionadas ao estrogênio – impactam a sensibilidade do sistema nervoso. O estrogênio pode aumentar a excitabilidade das células nervosas, tornando o organismo mais sensível a estímulos dolorosos. Isso ajuda a explicar por que muitas mulheres relatam variações na intensidade da dor ao longo do ciclo menstrual, durante a gravidez ou com o uso de anticoncepcionais.
Outro fator em estudo: a leptina
Pesquisas mais recentes também investigam o papel da leptina – hormônio conhecido por regular o apetite, mas que também parece influenciar a sensibilidade à dor. Em modelos experimentais, observou-se que, em fêmeas, determinados canais celulares ativam a liberação de leptina, o que pode intensificar a percepção dolorosa.
Curiosamente, desde a década de 1980 já se observava que mulheres com dor crônica apresentavam níveis mais elevados de leptina no sangue. Agora, começam a surgir explicações biológicas para esse achado.
O problema da dor minimizada
Mesmo com evidências científicas, a dor feminina ainda é frequentemente desvalorizada. Relatos de pacientes indicam que muitas recebem mais antidepressivos, menos analgésicos adequados e encaminhamentos tardios para especialistas. Esse atraso no reconhecimento pode prolongar o sofrimento e dificultar o tratamento.
O que pode mudar no tratamento?
As descobertas abrem portas para novas abordagens terapêuticas. Em vez de apenas bloquear o sinal de dor, futuras estratégias podem buscar fortalecer o próprio sistema natural de resolução da dor do corpo, estimulando a produção de moléculas como a IL-10 ou modulando hormônios envolvidos nesse processo. Além disso, compreender diferenças biológicas entre os sexos pode levar a tratamentos mais personalizados e eficazes.
Se a dor persiste por mais de três meses, interfere no sono, limita atividades ou afeta o humor, é fundamental buscar avaliação médica. O ideal é contar com uma abordagem multidisciplinar, envolvendo médicos, fisioterapeutas, psicólogos e estratégias de manejo da dor adequadas. À medida que a pesquisa avança, fica cada vez mais claro: compreender as diferenças biológicas não divide, aprimora o cuidado.
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