Solidão pode ser tão prejudicial quanto fumar 15 cigarros por dia, diz OMS
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Sentir-se sozinho de vez em quando faz parte da experiência humana. Mas quando esse sentimento se torna constante e vem acompanhado da sensação de não ter vínculos significativos, as consequências podem ir muito além do sofrimento emocional. Segundo um novo relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), a solidão e o isolamento social representam um importante desafio para a saúde pública e estão associados a centenas de milhares de mortes todos os anos.
O documento chama atenção para um dado impactante: a desconexão social pode ser tão prejudicial ao organismo quanto fumar cerca de 15 cigarros por dia. Mais do que um alerta, a OMS defende que fortalecer os laços entre as pessoas deve se tornar uma prioridade para governos, comunidades e serviços de saúde.
A solidão também afeta o corpo
O relatório da OMS estima que, entre 2014 e 2019, aproximadamente 871 mil mortes por ano estiveram relacionadas aos efeitos da solidão e do isolamento social – o equivalente a cerca de 100 mortes por hora em todo o mundo. Embora muitas vezes seja vista apenas como uma questão emocional, a ciência mostra que a falta de conexões sociais consistentes também interfere na saúde física.
Segundo a organização, pessoas que vivem isoladas ou se sentem persistentemente desconectadas apresentam maior risco de desenvolver doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, ansiedade, depressão e até morrer precocemente. Isso acontece porque o organismo responde ao isolamento como uma situação de ameaça contínua, ativando mecanismos biológicos ligados ao estresse.
Por que a solidão faz mal?
Quando a sensação de estar sozinho se prolonga por muito tempo, o corpo pode permanecer em estado de alerta. Entre as alterações mais estudadas está o aumento do cortisol, conhecido como o hormônio do estresse. Em níveis elevados por longos períodos, ele pode favorecer alterações no sono, piora da imunidade, aumento da pressão arterial e maior acúmulo de gordura abdominal.
Além disso, pesquisas apontam que a solidão está relacionada a um quadro de inflamação crônica de baixa intensidade, processo que contribui para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares e metabólicas.
Esse conjunto de fatores ajuda a explicar por que especialistas comparam os efeitos do isolamento social prolongado aos de hábitos conhecidos por prejudicar a saúde, como o tabagismo.
Jovens também estão entre os mais afetados
Embora a solidão seja frequentemente associada ao envelhecimento, os dados mostram uma realidade diferente. De acordo com a OMS, cerca de uma em cada seis pessoas no mundo relatou ter se sentido solitária entre 2014 e 2023. A prevalência é ainda maior entre adolescentes e adultos jovens.
Segundo o levantamento, aproximadamente 20,9% dos adolescentes de 13 a 17 anos afirmaram sentir solidão, assim como 17,4% das pessoas entre 18 e 29 anos. Em países de baixa renda, esse percentual chega a 24% da população.
Os pesquisadores apontam que diversos fatores ajudam a explicar esse cenário, como o aumento do número de pessoas vivendo sozinhas, a urbanização acelerada, mudanças nas relações comunitárias e a crescente presença das tecnologias digitais na rotina. Embora as redes sociais possam facilitar contatos, elas nem sempre substituem vínculos profundos e relações de apoio.
Estar rodeado de pessoas nem sempre evita a solidão
Um dos pontos destacados pelos especialistas é que solidão e isolamento social não são exatamente a mesma coisa. Uma pessoa pode morar sozinha e sentir-se emocionalmente amparada por familiares e amigos. Da mesma forma, alguém pode conviver diariamente com muitas pessoas e, ainda assim, experimentar um profundo sentimento de desconexão.
É justamente essa percepção subjetiva de não pertencimento que parece exercer grande influência sobre a saúde. Por isso, cultivar relações significativas costuma ser mais importante do que simplesmente aumentar o número de contatos sociais.
Pequenos gestos fazem diferença
Apesar dos dados preocupantes, o relatório também traz uma mensagem de esperança. Para a OMS, fortalecer a conexão social não depende apenas de grandes políticas públicas. Atitudes simples do cotidiano também podem contribuir para reduzir o isolamento.
A organização destaca que conversar com alguém com atenção, cumprimentar um vizinho, manter contato com familiares, participar de atividades coletivas ou dedicar tempo a amizades são exemplos de ações capazes de fortalecer o senso de pertencimento.
A solidão entrou na agenda da saúde pública
Diante das evidências acumuladas nos últimos anos, alguns países já começaram a tratar o tema como uma questão de saúde pública. Segundo a OMS, Japão, Reino Unido, Estados Unidos, Dinamarca, Suécia, Finlândia, Alemanha e Países Baixos já desenvolveram estratégias específicas para enfrentar a solidão, com campanhas de conscientização, programas comunitários e ações voltadas ao fortalecimento dos vínculos sociais.
Agora, a Comissão da OMS sobre Conexão Social propõe que essa discussão seja ampliada mundialmente. Entre as prioridades estão a criação de políticas públicas, o incentivo a pesquisas, a produção de dados e o desenvolvimento de intervenções que promovam relações sociais mais saudáveis.
A mensagem final do relatório reforça que cuidar da saúde não significa apenas controlar a pressão arterial, alimentar-se bem ou praticar atividade física. Também envolve construir espaços onde as pessoas possam se sentir vistas, acolhidas e pertencentes. Afinal, cultivar conexões humanas pode ser uma das formas mais importantes de proteger tanto a mente quanto o corpo.
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