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Wellness que adoece
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Bons Fluidos
11/02/2026 00h00
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àVocê se cobra demais? A sua autocobrança acabou virando mais um ponto a melhorar na sua rotina, inclusive quando o assunto é saúde, bem-estar e autocuidado? Em vez de aliviar, cuidar passou a ser mais uma exigência? Em vez de acolher, passou a ser um problema? Algo que ocupa a mente, gera culpa e se soma à lista de tudo o que ainda falta dar conta?

Existe um momento em que percebo isso com muita clareza. Existe um horário em que eu deveria meditar. E existe um outro, bem maior, em que me culpo. Às vezes porque sei que não vou conseguir. Às vezes porque sinto que estaria perdendo tempo que poderia ser usado de forma mais produtiva. E às vezes porque já antecipo que vou fazer uma meditação apressada, distraída, no automático. Antes mesmo de sentar, o wellness já virou cobrança.

A meditação, aqui, é apenas um exemplo. Poderia ser o exercício físico que vira obrigação, a alimentação que vira vigilância constante, o sono que vira meta, a pausa que vira culpa. Poderia ser qualquer prática que, em teoria, deveria fazer bem, mas que atravessada pela autocobrança deixa de cuidar e passa a adoecer.

Vivemos um tempo em que o cuidado entrou na mesma lógica da produtividade. O wellness ganhou método, rotina e desempenho. Não basta cuidar. É preciso cuidar do jeito certo. Não basta descansar. É preciso descansar bem. Não basta buscar equilíbrio. É preciso ser constante, disciplinado, impecável.

A saúde, que poderia ser um espaço de escuta, transformou-se em um projeto de melhoria contínua. O corpo passou a ser algo a ser ajustado, corrigido, otimizado. E, nesse processo, a gentileza foi ficando para depois.

Nunca tivemos tanto acesso a informações sobre como viver melhor. São métodos, protocolos, listas, rotinas ideais. Sempre há alguém ensinando como respirar melhor, dormir melhor, comer melhor, desacelerar melhor. O problema é que, no meio de tantas orientações, fica cada vez mais difícil perceber como estamos, de fato.

A sensação constante é a de estar devendo. Devendo presença. Constância. Disciplina. Mesmo quando estamos tentando cuidar, parece que nunca é suficiente. Talvez não estejamos cansados do autocuidado em si. Talvez estejamos cansados da vigilância permanente. De transformar cada escolha em um teste, cada dia em uma avaliação, cada falha em motivo de culpa.

O corpo, no entanto, não funciona como uma planilha. Ele não responde bem à lógica da meta. O corpo fala outra língua. Ele se expressa pelo cansaço, pela tensão, pela insônia, pela irritação. Ele pede pausa quando está exausto. Movimento quando está rígido. Silêncio quando está sobrecarregado. E nem sempre o que ele pede coincide com o que a rotina considera produtivo ou ideal.

Saúde não é constância rígida. É relação. Diálogo. É a capacidade de escutar o que está acontecendo agora, e não apenas seguir um plano traçado para uma versão ideal de nós mesmos. Quando o wellness vira obrigação, ele perde sua função mais importante. Em vez de restaurar, desgasta. Em vez de aliviar, pesa. E em vez de aproximar a gente do corpo, cria mais uma camada de cobrança entre nós e o que sentimos.

Existe uma violência muito sutil quando nos obrigamos a relaxar, quando nos forçamos a estar bem, quando transformamos práticas de cuidado em mais uma forma de controle. Até o descanso, assim, deixa de ser descanso. Vira desempenho.

Talvez o verdadeiro autocuidado hoje não esteja em adicionar mais uma prática à rotina, mas em retirar algumas exigências. Talvez esteja em abrir mão da ideia de fazer tudo certo. Ou, talvez, esteja em aceitar que alguns dias serão desorganizados, incompletos, imperfeitos, e ainda assim legítimos.

Cuidar da saúde não deveria parecer uma dívida que nunca se paga. Não deveria ser mais um lugar de tensão. Não deveria gerar medo de errar. Talvez o corpo não precise de mais disciplina. Talvez precise de mais gentileza. Ou o bem-estar comece justamente quando a gente para de tentar performá-lo. Porque saúde não é sobre cumprir. É sobre sentir. E, sobretudo, sobre poder descansar.

Leia também: Reconstruindo a autoestima após um relacionamento abusivo”

Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do TIM NEWS, da TIM ou de suas afiliadas.
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