Eu não consigo fazer mil coisas ao mesmo tempo. Graças a Deus!
Bons Fluidos

Eu já tentei ser capaz de fazer mil coisas ao mesmo tempo. Juro. Já participei de reunião enquanto fazia o jantar, resolvi pendência doméstica de eletricista e encanador dirigindo, falei ao telefone com a minha irmã marcando médico por mensagem… Coisas assim. Por alguns minutos, a sensação era quase heroica. “Resolvi tudo!”
Depois, vinha o preço: cabeça acelerada, cansaço sem explicação e aquela dificuldade clássica de desligar o cérebro na hora de dormir. Além disso, no fim, saía tudo errado. Não lembrei a hora que o eletricista marcou, o jantar queimou e não registrei nada sobre as diretrizes informadas na reunião do trabalho.
Em resumo: o chamado ‘multitasking‘ pode até parecer eficiente. No entanto, na prática, ele cobra juros altos. Durante muito tempo, venderam para nós a ideia de que fazer várias coisas ao mesmo tempo era sinônimo de competência. Melhor ainda se fosse mulher — afinal, somos “boas nisso”, dizem. O que raramente entra na conta é o desgaste. Alternar o tempo todo entre tarefas, pular de um estímulo para outro e emendar compromissos sem pausa não é talento, é sobrevivência. E uma sobrevivência bem cansativa.
A arte de (não) fazer mil coisas ao mesmo tempo
A ciência, aliás, não anda impressionada com essa nossa suposta habilidade. Pesquisadores lembram que o cérebro humano não foi feito para lidar com vários focos ao mesmo tempo. No máximo, conseguimos sustentar um ou dois pensamentos conscientes de cada vez. O resto é ilusão — e exaustão.
Estudos recentes mostram ainda que quem vive nesse modo multitarefa tende a buscar recompensas rápidas, subestimar o tempo que gasta em cada atividade e ter mais dificuldade de se autorregular. Traduzindo: ficamos mais cansadas, mais dispersas e com o celular grudado na mão. Não exatamente o pacote de sucesso que nos prometeram.
Talvez esteja na hora de parar de romantizar essa correria permanente. Fazer uma coisa de cada vez não é preguiça nem falta de ambição. Pode ser, na verdade, um pequeno ato de lucidez — e, quem sabe, de autocuidado. Porque dar conta de tudo, do jeito que andam as coisas, parece menos virtude e mais armadilha.
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