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"Porn addicted"?
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Bons Fluidos
03/03/2026 23h00
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Na minha adolescência, consumir pornografia não era algo simples. Se eu quisesse assistir a um filme pornográfico, precisava alugar escondido numa videolocadora – a única da cidade, para o meu desespero – torcendo para não encontrar alguém conhecido. Ou então comprar uma revista pornô numa banca escolhida estrategicamente longe de casa, como se a distância diminuísse a culpa, dobrada e escondida às pressas. Havia dificuldade de acesso. Havia limite. Existia um intervalo entre o desejo e a satisfação.

Hoje, tudo mudou. O que antes exigia esforço está disponível em segundos. O celular se tornou uma janela permanente para estímulos infinitos, gratuitos e anônimos. Nunca foi tão fácil acessar excitação. Nunca foi tão fácil repetir.

Durante a pandemia, relatórios públicos de grandes plataformas de conteúdo adulto indicaram um aumento expressivo no número de acessos durante os períodos de isolamento social. Em meio às restrições sanitárias e ao distanciamento físico, o consumo digital se intensificou — inclusive o sexual. Em 2022, quando sanções econômicas atingiram a Rússia após o início da guerra com a Ucrânia, empresas internacionais suspenderam serviços no país e surgiram debates nas redes sobre o impacto das restrições digitais, inclusive em plataformas de entretenimento adulto. Independentemente dos exageros que circularam, o episódio revelou algo simbólico: o acesso à pornografia já não é um fenômeno marginal, mas parte da engrenagem cultural contemporânea.

E não estamos falando de um grupo específico. Homens consomem, mulheres consomem, solteiros e casados consomem, curiosos e ansiosos consomem. O acesso é democrático. O impacto, nem sempre.

O desejo sexual é natural. A masturbação, por si só, não é um problema. O prazer faz parte da biologia humana. Quando somos expostos a estímulos sexuais, o cérebro libera dopamina, neurotransmissor ligado à motivação e à recompensa. Ela não responde apenas ao prazer, mas à novidade. E a pornografia online oferece exatamente isso: novidade constante, intensidade contínua, variedade sem fim. O cérebro aprende rápido que aquilo é altamente estimulante e passa a desejar repetir.

O desafio começa quando o estímulo deixa de ser ocasional e passa a ser frequente, automático, quase reflexo. Com o tempo, pode ocorrer uma dessensibilização. O que antes era suficiente deixa de provocar o mesmo efeito. Surge a necessidade de mais tempo, mais intensidade, mais novidade. Não se trata de fraqueza moral. Trata-se de adaptação neural.

Nos relacionamentos, os efeitos podem ser silenciosos. A pornografia oferece controle total: não há rejeição, não há negociação emocional, não há vulnerabilidade. Já a intimidade real envolve presença, imperfeição e entrega. Quando o cérebro se acostuma com estímulos intensos e rápidos, o encontro real pode parecer menos impactante. O desejo diminui, a comparação surge, a conexão enfraquece. Não necessariamente por falta de amor, mas por condicionamento.

É importante reconhecer que nem todo consumo é vício. Há quem utilize ocasionalmente, sem prejuízo emocional ou afetivo. O problema começa quando a pessoa tenta parar e não consegue, quando o hábito ocupa espaço excessivo, quando a fantasia substitui a experiência e quando a culpa se repete no dia seguinte. Nesse ponto, já não se trata apenas de desejo. Trata-se de dependência comportamental.

Muita gente imagina que exista uma fórmula simples para interromper a compulsão. Um método definitivo, um suplemento específico, uma técnica infalível. Mas não existe um chá que cure um vício, assim como não existe uma fórmula farmacêutica milagrosa capaz de desligar um comportamento compulsivo da noite para o dia – pelo menos não que eu saiba até agora.

O que existe é processo. Como todo comportamento compulsivo, o consumo excessivo de pornografia costuma estar ligado à ansiedade. E ansiedade não se resolve apenas com força de vontade. Ela pede regulação, pede cuidado com o corpo e com a mente. Algumas pessoas encontram apoio em práticas que ajudam a acalmar o sistema nervoso, como atividade física, meditação, respiração consciente e até fitoterápicos adaptógenos, como a ashwagandha ou a rhodiola rosea, conhecidos por auxiliar o organismo a lidar melhor com o estresse. Não são soluções mágicas, mas podem ser ferramentas dentro de um conjunto maior de mudanças.

Também é comum ouvir conselhos simplistas. “É só parar.” “Basta se controlar.” Ou, em tom de brincadeira, “durma com as mãos para fora do cobertor.” A verdade é que o impulso não desaparece por decreto. Ele precisa ser compreendido e redirecionado.

Quando a vontade surge, pequenas mudanças podem ajudar a quebrar o ciclo automático. Levantar da cama em vez de permanecer ali com o celular na mão, mudar de ambiente, caminhar alguns minutos, respirar profundamente, ocupar a mente com algo que exija atenção. O cérebro aprende por repetição, mas também desaprende quando o padrão é interrompido.

Mas talvez o aprendizado mais profundo seja este: nem todo desejo precisa ser atendido imediatamente. Existe um espaço entre o impulso e a ação. E é nesse espaço que mora a liberdade.

O desejo, quando consciente, pode ser força criativa, energia vital, conexão. Quando automático e incontrolável, pode se transformar em fuga. A questão não é negar o prazer, mas compreender o que está por trás dele. Estamos buscando excitação ou estamos tentando preencher algo que pede presença, vínculo e significado?

Num mundo em que tudo está disponível em segundos, maturidade pode ser recuperar o intervalo entre querer e fazer. Não para reprimir o desejo, mas para educá-lo. Porque o prazer, quando escolhido, amplia a vida. Quando compulsivo, a estreita. 

Talvez a pergunta final não seja se você é ou não “porn addicted”. Talvez seja esta: até que ponto o seu desejo está a seu serviço – e até que ponto você está a serviço dele?

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião de Bons Fluidos

Referências

  • KÜHN, S.; GALLINAT, J. Brain structure and functional connectivity associated with pornography consumption: The brain on porn. JAMA Psychiatry, 71(7), 827–834, 2014. DOI: 10.1001/jamapsychiatry.2014.93.
  • GOLA, M.; WORDECHA, M.; SESCOUSSE, G.; et al. Can pornography be addictive? An fMRI study of men seeking treatment for problematic pornography use. Neuropsychopharmacology, 42, 2021–2031, 2017. DOI: 10.1038/npp.2017.78.

Leia também: O exercício está por todos os lados, mas é necessário orientação”

Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do TIM NEWS, da TIM ou de suas afiliadas.
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