Exaustas, mas invisíveis: a sobrecarga que marca a vida das mulheres brasileiras
Anamaria

O Dia Internacional das Mulheres costuma trazer homenagens e celebrações. No entanto, por trás das mensagens positivas, muitas brasileiras continuam vivendo uma rotina marcada por múltiplas responsabilidades. Trabalho, cuidado com filhos ou familiares e organização da casa frequentemente recaem sobre elas — quase sempre de forma silenciosa.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, em 2022, mulheres dedicaram em média 21,3 horas semanais às tarefas domésticas e ao cuidado de pessoas. Já os homens gastaram 11,7 horas nesse tipo de atividade. Ou seja, elas dedicam quase o dobro do tempo ao chamado trabalho doméstico invisível.
Quando se somam emprego formal, casa e cuidado familiar, muitas mulheres ultrapassam facilmente as 50 horas semanais de trabalho. Esse cenário ajuda a explicar por que especialistas discutem cada vez mais o impacto da sobrecarga feminina na vida cotidiana e na saúde emocional.
Sobrecarga feminina: quando a jornada nunca termina
A sobrecarga feminina não se limita ao número de tarefas. Muitas mulheres também assumem o chamado “peso mental” da casa — organizar compromissos, lembrar consultas, planejar refeições e administrar a rotina familiar.
Segundo a neuropsicopedagoga Silvia Kelly Bosi, essa cobrança costuma ser silenciosa, mas constante. “Existe uma expectativa de que a mulher dê conta de tudo: trabalho, filhos, casa e ainda esteja emocionalmente disponível”, explica. Quando o cansaço se torna permanente, ele pode impactar a dinâmica familiar. A especialista alerta que mães cronicamente exaustas podem ter mais dificuldade para manter o equilíbrio emocional no dia a dia.
Grande parte do esforço feminino sequer aparece nas estatísticas econômicas. No entanto, pesquisadores da Fundação Getulio Vargas estimam que o trabalho doméstico invisível poderia representar mais de 8,5% do PIB brasileiro se fosse contabilizado como atividade formal.
O cenário pode se tornar ainda mais intenso para mães de crianças com necessidades específicas. Natália Lopes, fundadora da comunidade Voz das Mães, destaca que terapias, consultas e acompanhamento escolar ampliam a rotina de cuidados.
Saúde mental das mulheres também entra na conta
Com tantas responsabilidades acumuladas, especialistas alertam para os impactos na saúde mental das mulheres. Ansiedade, esgotamento e falta de tempo para autocuidado aparecem com frequência em pesquisas sobre o tema.
A psicóloga e neuropsicóloga Thaís Barbisan explica que jornadas múltiplas aumentam o risco de estresse crônico. “Quando a mulher precisa responder a muitas demandas ao mesmo tempo, sobra pouco espaço para descanso ou cuidado pessoal”, afirma.
Por isso, especialistas defendem mudanças estruturais. Dividir responsabilidades familiares, reconhecer o valor do cuidado doméstico e ampliar políticas públicas de apoio são passos fundamentais para reduzir a sobrecarga feminina.
Mais do que celebrar resistência, o Dia da Mulher também convida à reflexão sobre como transformar essa realidade.
Resumo: Mesmo após avanços sociais, muitas brasileiras ainda enfrentam sobrecarga feminina devido à soma de trabalho, casa e cuidados familiares. O trabalho doméstico invisível ocupa grande parte do tempo das mulheres e raramente é reconhecido. Especialistas alertam que essa rotina afeta diretamente a saúde mental das mulheres. Por isso, discutir divisão de tarefas e políticas de apoio é essencial para mudar esse cenário.
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