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Quando a infância vira agenda
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Quando a infância vira agenda

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Anamaria
15/03/2026 17h00
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Acordar, ir para a escola, voltar para casa, almoçar, assistir TV ou ler um livro, tirar uma soneca e depois se preparar para jantar e dormir. O que era comum há alguns anos mudou drasticamente, especialmente na última década. Agora, a rotina de muitas crianças inclui mochila nas costas para a escola; roupa de banho ou uniforme para esportes em uma bolsa separada, além de lanches diversos para serem consumidos ao longo do dia; livros e cadernos para aulas de línguas, música, artes e outras atividades. E assim, com tantos compromissos, a infância vai dando lugar a uma agenda cheia de segunda a sexta-feira.

Há crianças que gostam de tantas atividades; outras preferem um pouco mais de tempo livre. Já os pais, que cresceram em um tempo com agendas mais soltas, ficam na dúvida se estão exagerando na quantidade de cursos, esportes e oficinas que prometem ampliar repertórios e preparar os filhos prara o futuro, ou se deveriam incentivar mais o ócio — esse tempo aparentemente improdutivo, mas essencial para a criatividade e a construção da autonomia.

É inegável que as atividades extracurriculares trazem benefícios. Elas estimulam disciplina, ampliam a socialização, fortalecem o corpo e desenvolvem diferentes habilidades. Por outro lado, esse excesso de compromissos pode gerar ansiedade, privação de sono, irritabilidade, entre outras consequências.

Para a psicóloga Graziela Campos, “quando falamos de um excesso de atividades na agenda das crianças, podemos pensar em como isso afeta nós, adultos. Por exemplo: como ficamos quando estamos lotados de compromissos, exigências e prazos — que acabam ficando curtos por conta da demanda — para cumprir? Cansados, estressados, ansiosos, irritados… As crianças também podem se sentir assim, com a diferença de que nós, adultos, possuímos ferramentas que podem nos ajudar a nos regular emocionalmente, enquanto as crianças ainda não conseguem acessar essas ferramentas. Enquanto nós temos a oportunidade de diluir esses pesos causados pelo excesso de atividades, as crianças ainda não possuem”.

Na coluna de hoje, vamos mostrar que não há fórmula pronta dizendo quantas e quais atividades extracurriculares crianças e adolescentes devem fazer. Entretanto, há, sim, a necessidade de observar idade, temperamento, interesses e, principalmente, limites.

Como escolher o que o filho deve fazer

Em busca de ampliar oportunidades de aprendizado e desenvolvimento, muitas famílias acabam preenchendo a rotina de crianças e adolescentes com diversas atividades extracurriculares. Esportes, aulas de idiomas, música, reforço escolar e outras práticas podem ser importantes para estimular habilidades e interesses, mas, quando em excesso, acabam gerando cansaço, estresse e falta de tempo para descanso e lazer. Diante desse cenário, cabe aos pais avaliar com atenção a real necessidade de cada atividade, considerando o interesse dos filhos, o equilíbrio da rotina e a importância de preservar momentos de lazer e convivência familiar.

Danielle Blaskievicz, mãe de Augusto, de 11 anos, e Rafael, de 14, conta que, para escolher as atividades extracurriculares dos filhos, leva em consideração alguns pontos. “Para definir, a conta que fazemos em casa é ver se envolve questões importantes para uma formação integral como cidadãos: desenvolvimento intelectual, espiritual, social e esportivo. Isso tudo aliado aos interesses dos meninos, à disponibilidade logística da família — levar, trazer etc. — e ao fato de que as escolhas deles estejam alinhadas às nossas”, conta.

Entretanto, essa conta nem sempre fecha. “De nada adianta eu querer que o Rafael faça voluntariado se ele não quer ou não vê como prioridade. Se eu insistir, será só um motivo de estresse para ambos”, pontua.

Para ela, hoje existe uma tendência de colocar as crianças em muitas atividades para “prepará-las para o futuro”, mas às vezes esquecemos que elas ainda estão vivendo a infância. “Aqui em casa, o principal critério é o interesse dela e o que realmente contribui para o desenvolvimento. Claro que a logística da família também pesa, porque a rotina precisa funcionar, mas eu procuro sempre me perguntar: isso está fazendo bem para ela ou estamos fazendo porque parece que todo mundo faz?”, avalia.

Agda Dias, mãe de Amora, de 10 anos, que tem paralisia cerebral, conta que a rotina da filha se divide entre terapias de estimulação para melhorar o desenvolvimento em geral e atividades que a “deixem” ser criança.

“Quando ela era menor, o foco era nas terapias. Conforme foi crescendo, a escola passou a ser prioridade, mas é sempre um quebra-cabeça montar a agenda, já que ela não pode ficar sem fisioterapia, por exemplo, por conta do risco de danos ortopédicos. Hoje, Amora já tem seus próprios interesses e sente mais o cansaço das aulas na escola. Então, optamos por ficar somente com as terapias às quartas, sem colégio.”

A decisão de tirar um dia da semana da escola veio exatamente por perceber essa sobrecarga e a necessidade de um tempo livre. “Sempre faço essa revisão na agenda. Quando ela estudava todos os dias, percebia que ficava muito irritada, apática, sempre nervosa. Mesmo sendo não verbal, ela se expressa muito bem. E foi realmente o melhor caminho. O corpo dela precisava desse descanso, já que, naturalmente, gasta mais energia que uma criança típica devido à movimentação involuntária”, completa.

Para Graziela, quando entra em um estado de ócio, a criança tende a criar cenários que a transportam para um lugar divertido e criativo. “Essa independência traz para ela a autonomia de, mesmo sem determinadas ocupações, conseguir se expressar”, explica.

Fernanda concorda e pontua que, hoje, falamos muito sobre estímulo, desenvolvimento e atividades, mas às vezes esquecemos que é no tempo livre que a criança cria, imagina e simplesmente brinca. “O ócio também é um momento de descanso mental, algo que nós adultos muitas vezes perdemos.”

Para Danielle, embora os filhos possuam rotinas agitadas, é importante que tenham tempo para não fazer nada. “Rafael tem todas as segundas e quartas à tarde livres. Augusto fica livre às quintas. Acho que o ócio é fundamental. Eles são adolescentes e precisam curtir essa fase.”

E atenção: o excesso de atividades pode estar associado a quadros de ansiedade infantil. “Essa relação tem como base a pressão que a criança pode vivenciar para que o cumprimento das atividades aconteça de maneira mais elaborada do que a idade permite; o desenvolvimento da necessidade de agradar os adultos ao redor, tentando concluir as atividades dentro de um caminho perfeccionista; e o próprio cansaço, que pode despertar um comportamento ansioso”, conclui Graziela.

Leia a matéria original aqui.

Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do TIM NEWS, da TIM ou de suas afiliadas.
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