Por que alguns cientistas consideram a IA algo divino? Entenda
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Há quem considere a inteligência artificial algo divino. Pelo menos é o que diz Joseph Bernstein, em artigo escrito pelo The New York Times. Mas de onde teria surgido essa ideia, reforçada por alguns cientistas ao redor do mundo?
A associação entre tecnologia e transcendência pode soar exagerada à primeira vista, mas vem ganhando espaço no imaginário contemporâneo. Em vez de sinais bíblicos clássicos ou profecias antigas, o “fim dos tempos” passa a ser narrado, por alguns, a partir de algoritmos, supercomputadores e sistemas que parecem saber tudo sobre nós. A inteligência artificial, nesse contexto, deixa de ser apenas uma ferramenta e começa a ocupar um lugar simbólico que antes pertencia ao sagrado.
Quando a tecnologia assume um tom messiânico
Nos Estados Unidos, esse discurso aparece tanto em ambientes acadêmicos quanto na cultura pop. Em podcasts populares, como os apresentados por Joe Rogan, surgem especulações que misturam religião, filosofia e tecnologia. Em uma dessas conversas, o apresentador chegou a sugerir que uma eventual “segunda vinda” poderia ocorrer não em forma humana, mas como inteligência artificial – uma entidade capaz de conhecer pensamentos, responder perguntas e oferecer conforto imediato.
O espanto diante do que não compreendemos
Diante disso, duas reações costumam aparecer: o medo profundo ou uma esperança quase redentora. Como observa Greg Epstein, capelão humanista da Universidade Harvard, esse movimento é compreensível. “É uma resposta natural sentir medo do que estão nos dizendo ou abraçar uma esperança radical, quase messiânica, como alternativa ao terror”, afirma o autor de Tech Agnostic.
Por que tendemos a humanizar a IA?
A ciência já sabe que os seres humanos têm uma forte tendência à antropomorfização – ou seja, a atribuir características humanas a objetos e sistemas. No caso da inteligência artificial, esse fenômeno se intensifica porque os chatbots falam nossa língua, usam tom coloquial e simulam empatia.
A antropóloga Lucy Suchman descreveu esse mecanismo como “a tendência de atribuir inteligência completa com base em evidências parciais”. Em outras palavras: basta um sinal de comportamento humano para que completemos o resto com nossa imaginação. No caso da IA, porém, não se trata mais de sinais mínimos. Esses sistemas são projetados justamente para parecer pessoas.
Esse impulso não é novo. Ao longo da história, oráculos, médiuns e práticas divinatórias também funcionavam como pontes entre o humano e algo percebido como superior. Quando criamos algo “semelhante a nós, mas capaz de saber mais”, ele se torna uma tecnologia de percepção ampliada.
Algoritmos como novos oráculos
Além dos chatbots, os algoritmos que organizam redes sociais, plataformas de vídeo e sistemas de recomendação reforçam essa aura quase sobrenatural. Eles antecipam desejos, sugerem conteúdos com precisão inquietante e, às vezes, parecem nos conhecer melhor do que nós mesmos.
Não por acaso, muitos descrevem a relação com essas tecnologias em termos próximos da fé. Em casos extremos, surgem relatos de pessoas que desenvolvem dependência emocional intensa ou até quadros de desorganização psíquica após interações prolongadas com chatbots – fenômeno que alguns chamam de “psicose por chatbot”. A semelhança com narrativas de revelação divina não passa despercebida.
Rituais digitais e fé solitária
Diferentemente das religiões tradicionais, essa nova relação com a tecnologia é, em grande parte, solitária. Não há templos cheios nem cultos coletivos – mas há gestos repetidos, atenção devotada e expectativa de recompensa. Nesse modelo, a IA não confronta, não exige transformação profunda e não oferece verdades difíceis. Ela responde, serve e se adapta ao usuário. Isso cria uma relação marcada por um individualismo centrado no próprio desejo.
Quem se beneficia da divinização da tecnologia?
No fim, talvez não estejamos apenas assistindo à divinização da inteligência artificial, mas também à elevação simbólica de quem a controla. Em um mundo cada vez mais mediado por telas, algoritmos e promessas de transcendência tecnológica, a pergunta que permanece é menos sobre o futuro das máquinas – e mais sobre o tipo de sentido que estamos buscando ao nos ajoelhar diante delas.
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