Quanto tempo levamos para superar um ex? Pesquisa revela
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Quando um relacionamento termina, uma das perguntas mais comuns – e também mais angustiantes – costuma surgir quase automaticamente: quanto tempo isso vai doer? Ao longo dos anos, frases prontas tentaram oferecer algum alívio, como a ideia popular de que o tempo necessário para superar um ex seria proporcional à duração da relação. A cultura pop ajudou a espalhar essas teorias, mas a experiência real raramente segue regras tão simples.
A verdade é que o fim de um vínculo afetivo envolve processos emocionais, psicológicos e até neurobiológicos complexos. E foi justamente para entender melhor essa travessia que um grupo de pesquisadores decidiu investigar, com dados concretos, o que acontece com o apego depois de um término.
O que acontece com o vínculo depois do fim
Publicado em março de 2025 na revista Social Psychological and Personality Science, um estudo conduzido pelos psicólogos Jia Y. Chong e R. Chris Fraley, da Universidade de Illinois, analisou o comportamento emocional de 320 adultos que haviam passado por términos de relacionamentos longos, com duração mínima de dois anos.
Os participantes responderam a questionários sobre apego emocional, contato com ex-parceiros, início de novas relações e a intensidade dos sentimentos ao longo do tempo. A análise revelou algo importante: o desligamento emocional não acontece de forma brusca, nem segue um roteiro previsível.
Em média, leva cerca de 4,18 anos para que o ex deixe de ocupar um lugar central no mundo emocional e passe a ser percebido apenas como alguém do passado. Já a dissolução completa do vínculo afetivo pode levar aproximadamente oito anos. Ainda assim, os próprios pesquisadores ressaltam que “a variação individual foi considerável e que, para alguns voluntários, os sentimentos em relação ao ex-parceiro nunca desapareceram completamente”.
Por que o cérebro demora tanto a desapegar?
Para a neurociência, esse tempo prolongado não é surpreendente. Alejandro Andersson, neurologista e diretor do Instituto de Neurologia de Buenos Aires, explica que o cérebro cria mapas emocionais a partir dos relacionamentos significativos. Em algum momento, aquela pessoa ajudou a regular o estresse, ativou o prazer e passou a fazer parte da identidade do indivíduo. “O cérebro aprendeu que essa pessoa reduz as ameaças e/ou aumenta a sensação de recompensa”, explica o especialista.
Essas associações ficam distribuídas em diferentes áreas cerebrais ligadas à memória, ao apego e à recompensa. Mesmo após o término, estímulos internos (como lembranças) ou externos (como redes sociais) podem reativar esses circuitos. O cérebro, então, precisa de tempo para se recalibrar e entender que aquela fonte de segurança e prazer não está mais disponível. Mais do que sentir saudade, trata-se de reconstruir quem se é sem aquela relação. Quando esse processo não avança, a marca emocional permanece.
O luto do término não segue linha reta
Do ponto de vista psicológico, o fim de um relacionamento é compreendido como um processo de luto. E, assim como acontece com outras perdas, esse caminho não é linear. O tempo necessário para seguir em frente varia de acordo com fatores como estilo de apego, grau de dependência emocional, forma como o término aconteceu, idealização do ex, histórico de abandonos, rede de apoio e projetos de vida construídos em comum.
Embora compartilhem mecanismos semelhantes no cérebro, o luto por separação e o luto por morte não são iguais. Andersson explica que, na separação, existe sempre a possibilidade simbólica de retorno. “O cérebro pensa que a pessoa pode retornar, e a incerteza mantém o sistema de busca dopaminérgico mais ativo”, afirma. Essa expectativa, mesmo inconsciente, mantém o vínculo emocional em funcionamento por mais tempo.
O mito da “renovação” emocional
Uma ideia bastante difundida sugere que o corpo humano se renova completamente a cada sete ou dez anos – o que explicaria o esquecimento de um ex nesse intervalo. No entanto, quando o assunto é cérebro, essa lógica não se sustenta. “No caso do cérebro, a maioria dos neurônios e células corticais tem uma vida extremamente longa e pode durar a vida toda”, explica Andersson. Ou seja, não existe uma reinicialização automática das memórias emocionais. O que existe é um processo gradual de ressignificação.
Quando o sofrimento pede ajuda
Atenção para os sinais de alerta: quando a dor se torna crônica, interfere de forma significativa na rotina, vem acompanhada de ansiedade intensa ou sintomas depressivos, ou quando a pessoa sente que a vida ficou estagnada após o término. Nesses casos, psicoterapias como a terapia cognitivo-comportamental (TCC), a dessensibilização e reprocessamento por movimentos oculares (EMDR) e a terapia de aceitação e compromisso (ACT) podem ajudar a destravar processos emocionais que ficaram presos no tempo.
Não existe relógio para o coração
Encerrar um relacionamento não significa apenas se afastar de alguém. Envolve romper hábitos, expectativas, projetos e, muitas vezes, uma identidade construída a dois. Por isso, a dor pode ser intensa – e o caminho de recuperação não segue um calendário fixo.
A ciência ajuda a entender por que o desapego leva tempo, mas não determina prazos. Superar um ex é um processo singular, que exige paciência, acolhimento emocional e espaço para que novas versões de si possam, aos poucos, emergir.
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